quinta-feira, 12 de dezembro de 2013

Contos #01 — Incubus em Carne e Osso (suspense/terror)


Estranhando o silêncio em que a casa se encontrava, entrei pela porta dos fundos e com certo receio chamei por Arth. Nada. Fechei a porta, coloquei a bolsa em cima do balcão da cozinha, tirei os sapatos e fui até a escada. Uma luz estranha brilhava lá em cima. Algo que me lembrou luz de velas. Chamei novamente, nenhuma resposta. Resolvi subir.

Quanto mais me aproximava daquela luz fosca, mais meu coração palpitava e cheguei a me sentir em um filme de terror. No corredor de cima, encontrei a porta de meu quarto entreaberta. Era de lá que vinha a luz. Entrei. Realmente eram velas, havia velas por toda parte. De tons que iam do roxo ao rosa bebê. Pétalas de flores pelo tapete e em cima da cama. Arth apareceu da porta que levava ao banheiro. Levei um susto.

— Me perdoa! — disse ele. Não deveria. Não saberia conviver com os fantasmas de suas mentiras. E se esses me deixassem em paz, seriam os fantasmas de suas ameaças; de sua expressão psicótica enquanto jurava que eu não seria de mais ninguém, apenas dele. Momentos que eu apagaria de minha memória sem hesitar para tentar de novo. Eu o amava. Infelizmente o amava.

— Como posso te perdoar? Como posso voltar a confiar em você? Você me enganou. Me traiu. Me ameaçou. E como se não bastasse, não me deixa te esquecer. Não me deixa ser feliz.

— Você nunca vai me esquecer. Assim como eu não vou esquecer você.

Disse isso enquanto se aproximava. Encostou o rosto no meu. Pude sentir sua respiração. Aquele cara com quem convivi três anos e, em um mês se tornou um ser que eu não poderia aceitar tinha o dom de me fazer perder a razão. Tentei afastá-lo, mas foi inútil. Quando dei por mim, já estava fora de mim novamente. Parecia um tipo de magia. Magia negra. Eu não conseguia dizer uma palavra. Apenas senti o prazer que ele me dava. Aquela iluminação, aquele cheiro... Minha consciência dizia que não era certo. Que era a última vez. Que eu precisava colocá-lo para fora da minha vida antes que fosse tarde. Antes que ele sugasse toda minha energia vital.

Depois de momentos de prazer e medo, a forma como ele me olhava era quase angelical. Fazia eu me sentir como uma deusa poderosa e uma criança frágil ao mesmo tempo. Eu não sabia o que dizer. Aliás, eu sabia o que dizer. Não sabia como, mas sabia o quê.

— Arth... Você precisa me entender. Acabou! Eu amo você, mas isso vai passar. Nós fazemos mal um pro outro. Você enlouqueceu e eu me sinto cada vez mais fraca. Por favor...

— Mas eu não consigo aceitar a ideia de te ver com outra pessoa... Jura que nunca vai ter nada com outro homem! JURA! Se você jurar, eu sumo da sua vida pra sempre.

— Eu não posso jurar isso. A vida continua. Tanto para mim quanto para você.

Nisso ele me agarrou pelo pescoço. Mal pude respirar. O pânico tomou conta de mim.

— Não... Você não vai amar outro. NUNCA!

Me amarrou na cama e trancou a porta do quarto. Disse que se precisasse, iríamos apodrecer ali, daquele jeito, juntos, mas que ele jamais sairia de perto de mim. Olhei ao redor e lembrei do canivete que eu guardava no criado-mudo. Mas como eu alcançaria? E o que faria com um canivete naquele situação? Ele estava possuído!

Ficamos daquele jeito por umas duas horas. Ele chorava, se declarava, pedia perdão, surtava e me ameaçava. Não era a mesma pessoa que conheci. Definitivamente não era. Em um de seus surtos resolveu que ia encontrar coisas de outro homem entre as minhas. Deixou meu quarto de pernas para o ar. Claro, encontrou meu canivete. E com ele, deixou sua 'assinatura' enorme nas minhas costas, como se fosse uma etiqueta de propriedade. Aquilo ardia. Mas não ardia mais que o ódio que eu sentia por ele naquele momento. Eu seria capaz de matá-lo se me soltasse. Mas como?

As horas foram passando. Ele adormeceu. Tentei me soltar de todas as maneiras possíveis sem fazer muito barulho. Finalmente consegui. Me olhei no espelho. Meu pescoço estava roxo. Havia sangue até em meus pés que escorriam de minhas costas. Tudo que vi em meus olhos foi ódio. Eu precisava me livrar daquela vida.

Peguei o canivete e me aproximei dele. Derrubei uma lágrima. Ainda existiam lembranças dos velhos tempos em que vivíamos felizes. Passado. O que importava era o que acontecia no momento. Era o inferno em que ele transformou minha vida. E aquilo ia terminar ali. Foi apenas um movimento certeiro e o chão começou se alagar de sangue. Ele acordou.

— O QUE VOCÊ FEZ? SUA CRETINA!

Ele começou a chorar vindo em minha direção. Eu já fraca, me encostei na cama e olhei para meu abdômen que se esvaía em sangue.

— Você não me fez jurar que não seria de mais ninguém? Pois bem. Não serei mais, nunca mais. Nem mesmo sua.


Marcela Burghi Zadra, 2010.

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