sábado, 14 de dezembro de 2013

Contos #04 — A Família Calegari (suspense/terror)


A cidade grande sempre faz com que nossos nervos fiquem à flor da pele, podendo causar problemas sérios de saúde. Para uma jovem em gravidez de risco, esses problemas tendem a se multiplicar.

— Vamos para a casa da minha família no interior, não temos alternativa — disse Fred enquanto se dirigiam do hospital para casa pela sétima vez em quatro meses e meio de gestação. Em todas essas idas ao hospital, o bebê sempre estava em ótimo desenvolvimento. Quem parecia cada vez mais debilitada era a mãe, Giulia.

— Vamos sair de nossos empregos, que já não são grande coisa, e ir para o interior sem data para voltar. Lá você só vai fazer o que te agrade. Eu posso arrumar algum serviço em alguma das feiras, lanchonetes... Com minha formação também posso atender aos animais dos fazendeiros que existem aos arredores. O bebê e você são prioridades agora, chega desse inferno de lugar! — Fred era biólogo, mas o destino quis que ele fosse parar no escritório de contabilidade de um conhecido.

Giulia não discutiria nem que tivesse forças para isso. Não aguentava mais a correria, a poluição e nem o calor de onde moravam.

— Mas e se precisarmos de atendimento médico no meio do nada?

— É uma casa Giulia, como uma chácara, e não um sítio perdido no nada. Apesar de ter um celeiro... Ela fica a menos de 200 metros de um centro comercial, eu nasci no hospital de lá. Hoje deve estar muito melhor! 

— Tudo bem, Frederico Calegari. Quando a gente se casou eu prometi deixar você cuidar de mim a vida toda, então vou começar por aqui — respondeu ela dando uma piscadinha e um sorriso apaixonado para o marido, que retribuiu também com uma piscadinha e um sorriso.

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Como a casa estava uma bagunça, Fred havia mandado uma faxineira para lá antes da mudança. Quando chegaram, Giulia finalmente sentiu uma onda de paz. A casa era familiar e aconchegante, com varanda, uma lareira na sala de estar e três quartos.

— Por que nunca viemos aqui antes?

— Na verdade eu sempre me senti mal em pensar nessa casa. Cresci com minha mãe e meu tio, como você sabe, e embora ele tenha sido como um pai pra mim, essa casa sempre me faz lembrar que eu mal conheci meu pai de verdade e nem sei muito sobre ele. Minha mãe passava muito mal quando eu era garoto. Às vezes eu ouvia uns barulhos estranhos no quarto dela, como uns grunhidos de dor, mas meu tio sempre me levava dali e me distraía. Até cheguei a pensar que ela estava com alguma doença grave igual meu pai, e que, assim como ele, morreria logo. Mas com o tempo ela ficou bem e hoje é a mulher forte que você conhece.

Giulia o olhava como se ele fosse um garotinho indefeso. Só tinha vontade de abraçá-lo e agradecê-lo por ter passado por cima de tudo isso por ela. E pelo bebê.

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A primeira semana foi tranquila. Giulia de sentia bem e disposta; até começou a mexer com as plantas no quintal deixando o jardim bonito outra vez. Fred havia conseguido um emprego: estava tomando conta do mercadinho do seu Juarez. Enquanto ele estava lá, para que Giulia não ficasse sozinha em casa, Catarina, filha de seu Juarez, fazia companhia à Giulia. E essa, por sua vez, a ajudava com os estudos para o vestibular que prestaria no ano seguinte. Ao cair da noite, Catarina ia embora e Fred voltava para casa.

Por vezes, Fred tentava conversar com seu Juarez sobre sua família, especialmente sobre seu pai. Mas o homem sempre ficava nervoso e desconversava, não queria se meter em assuntos familiares. No máximo dizia que era mais amigo de seu tio e que mal lembrava de seu pai. E assim, emendava histórias para que as perguntas cessassem.

As semanas foram passando, Giulia chegou ao sétimo mês de gestação e só passou mal uma vez desde que chegaram naquele lugar. E nem foi nada demais, um banho e um vitaminado de frutas já fora o suficiente para que se sentisse melhor. Eles costumavam se sentar numa cadeira de balanço na varanda enrolados num cobertor verde depois do jantar. O céu daquele lugar era lindo de uma forma como ela nunca havia visto antes. A lua parecia bem maior, principalmente quando estava cheia.

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Após a chegada do sétimo mês, Giulia começou a se sentir mal novamente. Mas agora eram sensações diferentes. Não tinha mais fraqueza, desmaios, falta de apetite e mudanças térmicas inexplicáveis em seu corpo. Ela sentia medo, vivia angustiada e passara a ter dificuldades para dormir. Quando acordava no meio da noite de um breve cochilo, Fred quase nunca estava ao seu lado na cama. Na maioria das vezes ele voltava em alguns minutos dizendo que havia ido tomar água, ido ao banheiro ou sentar-se em frente a lareira para pensar sobre sua infância. Em outras vezes, Giulia adormecia novamente antes que ele voltasse para o quarto.

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A lua brilhando, muitas sombras, um som horrível de asas gigantes batendo, uma criança gritando pelo pai. Fred acordou assustado e encharcado de suor. Saiu da cama e foi para a varanda com um copo de água na mão. Seu olhar fixou-se no celeiro por vários minutos, talvez uma hora. Aqueles pesadelos que o faziam acordar toda noite eram apenas pesadelos? Por que ele não conseguia lembrar de quase nada da sua infância? Por que ele não conseguia lembrar de seu pai?

— Sua mãe ligou ontem a tarde, esqueci de te avisar. Ela quer vir pra cá para me fazer companhia nessas últimas semanas de gravidez. Achei muito gentil da parte dela e aceitei. Tudo bem por você?

Essas foram as primeiras palavras que Fred realmente prestou atenção na manhã seguinte. Suspirou e por um momento pareceu não concordar. Ficou em silêncio, com o olhar perdido e finalmente respondeu sorrindo:

— Claro, vai ser bom para ela e para você. Para nós.

 — O que está acontecendo com você? Eu vi como você acordou essa noite. Na verdade eu acordei com os seus gemidos, mas achei melhor te deixar quieto.

— Não sei, não lembro direito o que aconteceu. Foi um pesadelo, nada demais. Devo estar preocupado com o final da gravidez. É isso Giu, só preocupação.

Despediram-se com um beijo e Fred foi para o mercadinho assim que Catarina chegou.

****

Giulia chegara aos oito meses de gestação e agora podia contar também com a companhia da sogra. Ela lhe mimava mais do que sua própria mãe seria capaz de fazer, com chás, comida saudável o tempo todo, perguntas constantes sobre seu conforto e se ela desejava alguma coisa. Ela era uma mulher adorável, mesmo sendo um pouco severa. Quando Fred lhe contara como chegou a ver a mãe, de cama e praticamente sem esperança de viver, era difícil acreditar que se tratava da mesma pessoa. Ela realmente era um exemplo!

— Querida, tenho escutado o Fred por aí durante as noites. Você sabe o que está acontecendo com ele? — questionou Vera preocupada com o filho enquanto tomava um chá da tarde com Giulia.

 — Bom, na verdade ele diz que está preocupado com o bebê e não consegue dormir direito. Eu percebo que ele tem pesadelos, acorda agitado e faz uns barulhos durante a noite, mas ele não diz nada demais.

 A mulher, ouvindo as palavras da nora, deixou transparecer uma expressão de tensão. Não apenas tensão, mas uma espécie de dúvida. Ou seria uma certeza que ela não queria acreditar?

Naquela noite, quando Fred saiu da cama, Giulia decidiu que deveria conversar com ele. Esperou uns minutos deitada para ver se ele voltaria logo, mas ele não voltou. Ela se levantou e foi em direção às escadas, chamando por Fred. Nenhuma resposta. O andar de baixo estava silencioso, tão silencioso quanto o andar de cima. A porta do quarto de Vera também estava fechada, e sendo assim, a moça não quis acordar a sogra. Pegou um casaco e desceu.

A porta da cozinha estava entreaberta. Giulia logo pensou que o marido estaria sentado na varanda perdido em seus pensamentos enquanto admirava a lua. Saiu na esperança de encontrá-lo enrolado no cobertor verde com um chá nas mãos, mas só se deparou com um vento frio e a lua brilhante, que de mágica passou a ser assustadora. Ela não fazia ideia do que poderia ter acontecido. Talvez ele estivesse no banheiro e ela não percebeu. Quando decidiu voltar para dentro, ouviu um barulho estrondoso de madeira vindo do celeiro. Sem pensar na possibilidade de tudo estar desabando pelo desgaste do tempo, ou ainda que fossem ladrões ou algum animal selvagem, ela saiu em disparada até o local. Gritou por Fred, mas tudo que ouviu foi mais barulho.

Chegando ao celeiro, Giulia tentou abrir a porta. Era enorme, pesada e ainda estava emperrada. Abriu apenas uma fresta e passou por ela com dificuldade por conta da barriga que já estava enorme. Lá dentro parecia silencioso agora. Quando conseguiu entrar, sussurrou por Fred mais uma vez. Foi caminhando ali, devagar e com atenção para não se machucar em ferramentas enferrujadas. Não viu nada de estranho, até perceber uma respiração muito forte vinda de cima. Ao levantar os olhos, Giulia congelou e não acreditou no que estava vendo. Nunca vira uma criatura daquela nem nos filmes de terror que tivera coragem de assistir em sua adolescência. Uma criatura negra, coberta por escamas ou alguma tipo de casca de inseto. Não era um morcego, e nem um homem comum. Parecia uma mistura de ambos, um rosto humano deformado, pernas finas e tortas com grandes garras no lugar dos pés, e estava enrolado em algo que pareciam ser asas. Ele estava agachado sobre uma das madeiras do forro do celeiro, olhando para Giulia. Estava escuro, e a única iluminação que ali existia era a da lua atravessando as pequenas janelas e as frestas por entre as madeiras do celeiro. A lua estava cheia e brilhante, mas não ajudava muito. Mesmo com a escuridão, era possível perceber um brilho avermelhado nos olhos daquela criatura, que a encarava sem desvios. Quando o momento do choque deu uma brecha e ela conseguiu forças para tentar correr, a criatura abriu suas asas enormes, asas idênticas às de morcegos, e em dois segundos estava bloqueando a passagem de Giulia. Ela tentou correr para o outro lado, mas a criatura começou a produzir um som ensurdecedor, fazendo com que ela se jogasse no chão e tampasse os ouvidos. A coisa então ficou de pé no chão, olhando para a moça que chorava e sussurrava o nome do marido. Foi se aproximando, e a cada passo era possível ouvir uma fungada semelhante a de um búfalo. A criatura parecia calma, mas quando chegou perto o suficiente da moça, soltou mais uma vez aquele som ensurdecedor e levantou uma das garras, preparando um ataque. Nesse momento, as portas do celeiro fizeram barulho e Vera apareceu, gritando:

 — DEIXA MINHA NORA E MEU NETO EM PAZ, SEU MONSTRO!

A criatura recuou o ataque que atingiria Giulia e avançou em direção à Vera. Essa estava preparada, e numa questão de segundos, havia atravessado o peito do monstro com o cabo de um rastelo que estava pontiagudo como uma estaca. Ele soltou um grunhido de dor e caiu no chão. Após o último suspiro, lá estava Fred, sem roupas, encharcado de suor e sangue. Morto. Vera, então, começou a chorar e sentou-se ao lado do corpo do filho pedindo perdão. Deu-lhe um beijo e foi até Giulia, que se mantinha em choque e desespero no chão.

— Fred... Fred... Fred... — a moça repetia aos sussurros e quase sem conseguir respirar, abraçando a própria barriga.

Vera agachou ao lado da nora e apoiou a cabeça dela em seu peito.

— Eu sei o tamanho da confusão que está na sua cabeça agora, querida. Acredite! Não espero que você compreenda ou aceite com facilidade. Sabe aquelas lendas de maldição de família? Infelizmente não são apenas lendas... Foi nisso que meu marido se transformou quando Fred tinha três aninhos. Foi isso que meu irmão precisou enfrentar enquanto eu, desesperada, assim como você está agora, tentava salvar meu filho que chorava e gritava pelo pai. Depois disso eu quase morri, é verdade, mas meu amor por Frederico fez com que eu me recuperasse para cuidar dele. Você vai ficar bem também, eu te prometo. Eu vou cuidar de você.

Giulia continuava sentada no chão, num desespero arrebatador e aos soluços, se sentindo sem rumo e sem acreditar em nada do que estava acontecendo.

— Mas e agora, Vera? Eu perdi meu marido, estou grávida, eu... O que eu faço agora? — suplicou a jovem quase sem voz.

 — Agora — respondeu Vera —, a gente reza para que seu filho não seja um menino.



Marcela Burghi Zadra, 2013.

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