quinta-feira, 12 de dezembro de 2013

Contos #02 — O Porquinho não Morreu (na escola)

A pauta do dia consistia em terminar a atividade da aula anterior, onde os alunos deveriam relatar uma experiência vivida. Como na segunda parte da atividade iriam formar duplas para um ajudar o outro a corrigir seu relato gramaticamente falando, o objetivo da professora naquele momento era atender às dúvidas das crianças, auxiliar para que a produção de texto fosse realizada e que fosse realizada com coerência (início, meio e fim; sequencia de fatos com sentido etc.), e não corrigir os erros das palavras em si, que eram muitos se tratando de uma 6ª série de recuperação intensiva.


Apesar de estar me sentindo um pouco deslocada logo que cheguei à escola por ter me ausentado na semana anterior, aos poucos fui me sentindo em casa novamente quando os alunos me cumprimentavam e se mostravam à vontade com a minha presença. Durante a atividade fui passeando pela classe atendendo a chamados e conferindo se todos estavam escrevendo. Mesmo tendo que, de certa forma, adivinhar o que estava escrito, me diverti lendo alguns. Perguntava sobre o que havia acontecido, me mostrei interessada na história deles. E de fato estava.
Em meio a essas checadas, quando estava lendo o relato de um dos garotos (que infelizmente não me recordo bem do que se tratava, acredito que algo relacionado ao campo) e na tentativa de adivinhação de algumas palavras, eis o ocorrido:

— VOCÊ MATOU UM PORQUINHO????? — perguntei assustada.

Um menino que estava na fileira ao lado e ouviu minha pergunta espantada, começou a rir com muita espontaneidade e de uma forma contagiante. Ria e repetia a frase “aaaah, matou um porquinho...”. O autor então respondeu que não. Perguntei:

— O que tá escrito aqui então? — apontando uma palavra.

Ele respondeu: pouquinho!

Eu: Ah sim! Você nadou um pouquinho?

Ele: Isso.

E o outro continuava rindo. De certa forma eu sabia que ele estava rindo de mim, rindo por eu ter entendido errado o que estava escrito, mas não me importei. Pelo contrário, era impossível não ter entrado na onda rindo também.

Uma situação que parece tão boba, onde alguns professores até poderiam ter ficado irritados pela “exposição ao ridículo”, praticamente reascendeu minhas expectativas do inicio do curso. A gente opta pela docência pensando em tudo aquilo que trará satisfação, esquecendo que existem muitos problemas a serem enfrentados; o que a universidade logo faz questão de nos lembrar colocando a dúvida: será que fui feita para isso?

Se for para enfrentar esses problemas e viver momentos tão bons com meus alunos, seja no aprendizado em si ou na descontração, acredito que será uma troca justa. Não sei por quanto tempo ainda vou rir lembrando dessa história, mas com certeza esquecer está fora de cogitação.


Marcela Burghi Zadra, 2012.

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