segunda-feira, 30 de dezembro de 2013

Contos #06 — Pequeno Gesto, Grande Conquista (na escola)

Participei de um programa na faculdade onde éramos inseridos em escolas estaduais para acompanhar aulas e desenvolver projetos. Os cursos participantes eram pedagogia (meu), geografia e educação física. Um dos projetos que conseguimos desenvolver trazia como tema "Gênero, Diversidade e Sexualidade". Com oficinas constituídas por dinâmicas, filmes e conversas, nosso objetivo era trabalhar sobre o preconceito que ocorre entre os gêneros com o sexismo, com os diferentes gostos/opiniões/atitudes e com a orientação sexual das pessoas.

Me avisaram que uma das turmas para qual fui selecionada para aplicar a atividade, um sétimo ano, não seria fácil. Eu pensei que estivessem exagerando, mas realmente foi bem complicado! Por mais que estivéssemos em três professores (eu e mais um casal da educação física), os trinta e tantos alunos nos deram um trabalhão. Não queriam ficar na sala de aula perdendo educação física — já que a aula cedida para nós foi justamente dessa disciplina — para dar atenção ao nosso projeto. Alguns ameaçavam sair da sala e muitos diziam que não iam participar de nada.

Um aluno em especial (o caso mais delicado da turma) nem quis sentar onde pedimos que sentasse. Deixamos ele onde ele quis e arriscamos iniciar as atividades com uma dinâmica de objetos e depois um vídeo que traz o tema homossexualidade de forma doce e sutil, ótimo para trabalhar com pré adolescentes. Durante a exibição, esse aluno ficou virado de lado e conversando, embora desse algumas espiadas na tela projetada na lousa. 

O filme acabou e começamos nossa conversa sobre a dinâmica e o vídeo. A sala se mostrou ainda mais difícil de lidar. O preconceito reinava por ali com frases prontas extremamente ofensivas em relação ao vídeo; frases que, muitas vezes, aquele que dizia nem sequer tinha noção do que estava dizendo — como "esse morde a fronha", por exemplo. Foi um trabalho bem árduo; me senti carregando toneladas nas costas, desanimada e desacreditada de que conseguiríamos sair daquela turma com alguma sementinha plantada assim como consegui sair das outras. 

Eis que, felizmente, sou surpreendida:

O garoto "problema" da turma, aquele que não queria participar e se recusou a assistir o vídeo — pelo menos aparentemente — foi o que mais mostrou interesse em participar de nossa conversa. Por mais que o vídeo possa ter sido um tanto incômodo para ele assim como foi para os outros, ele foi um dos únicos que disse coisas como "é o gosto dele... se ele quer assim, eu não tenho nada a ver com isso". Essa foi a forma dele de mostrar respeito pela escolha e pelo modo de vida das outras pessoas. Também pude ver o quanto ele é inteligente quando fiz perguntas sobre alguns termos e atitudes. Enquanto o restante da sala apenas tumultuava ou não sabia o que dizer, ele me dava várias respostas certas (se tratando de significado de termos) e positivas (mostrando respeito pelo próximo), deixando claro o quanto estava conseguindo compreender a mensagem que estávamos querendo passar e sendo, da maneira dele, bem receptivo.

O projeto pode não ter dado muito certo com a turma em geral, mas só pela reação desse aluno que é visto por todos como um dos casos mais complicados da escola, senti que sempre é possível plantarmos nossa sementinha. E às vezes ela germina onde menos esperamos.


Marcela Burghi Zadra, 2013.

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