sexta-feira, 20 de dezembro de 2013

Resenha #06 — O Morro dos Ventos Uivantes (Emily Brontë)


O Morro dos Ventos Uivantes
Título original: Wuthering Heights
Autor: Emily Brontë
Editora: Círculo do Livro
Páginas: 450

"Na fazenda chamada Morro dos Ventos Uivantes nasce uma paixão devastadora entre Heathcliff e Catherine, amigos de infância e cruelmente separados pelo destino. Mas a união do casal é mais forte do que qualquer tormenta: um amor proibido que deixará rastros de ira e vingança. 'Meu amor por Heathcliff é como uma rocha eterna. Eu sou Heathcliff', diz a apaixonada Cathy. O único romance escrito por Emily Brontë e uma das histórias de amor mais surpreendentes de todos os tempos."





O pai de Catherine encontrou Heathcliff abandonado quando era uma criança, o levou para casa e o criou como filho. Heathcliff, como imaginamos pela sinopse do livro, se aproximou muito de Cathy, mas Hindley, irmão mais velho de Cathy, sempre maltratou o garoto. Quando o pai de Cathy e Hindley morreu, o filho tomou conta da família, maltratando Heathcliff de todas as maneiras possíveis. Apesar de reconhecer que estava apaixonada por Heathcliff, Catherine decide se casar com o vizinho, Edgar, por questões econômicas e de nome. Ao saber disso, Heathcliff foge, voltando tempos depois como alguém totalmente mudado e bem apresentável. Porém, seu objetivo nada mais era do que se vingar de ambas as famílias por tudo que o fizeram sofrer. E mesmo assim, em meio a sua loucura de vingança, ele sempre demonstra um sentimento verdadeiro — e doentio — por Catherine.

Insanidade total e geral define essa obra. Embora num primeiro momento entendemos que os protagonistas sejam Heathcliff e Catherine, o desenrolar do livro vai muito além do que acontece com e entre os dois. Primeiro que o livro é narrado por um inquilino que nada tem a ver com as famílias e por uma das criadas que cresceu junto com Catherine e Heathcliff. Segundo que se passam bem uns 30 anos de narrativa, fazendo com que personagens morram e seus filhos se tornem os principais. Todos apresentam personalidades únicas e fortes, cada qual em seu papel, até mesmo os criados que são acompanhados com frequência. O foco, de modo geral, é em Heathcliff sim, mas como ele não é acompanhado pelos narradores o tempo todo, outros personagens acabam ganhando um belo destaque. Não existe mocinha, mocinho, bandida ou bandido. Heathcliff, que de início era apenas o garoto cigano injustiçado, acaba por ser visto como o vilão da história. Mas, ao mesmo tempo, sabendo de tudo que ele passou na mão daquelas pessoas, será que ele não tem suas razões em agir como veio a agir? Mais uma vez podemos ver o realismo da existência humana, onde o bem e o mal caminham juntos. Catherine também dispensa a imagem de donzela delicada e boa moça de família. Agia como um moleque na infância e depois se tornou uma moça mimada, egoísta e quase insuportável, conseguindo o que bem entendia com seus chiliques. 

O livro possui tanta informação e tantas nuances que seria necessário horas e horas de análise para ter algo ainda superficial. Entre todos os acontecimentos, acredito que a loucura e sentimentos/sensações ruins (desprezo, violência, ódio, vingança, revolta, inferiorização, injustiça, delírio etc.) ganham um tremendo destaque. Aliás, acredito que são essas palavras que definem essa obra. O amor é visto em poucos lugares, e ainda assim, por vezes é acompanhado da loucura — o que pode ser justificado justamente por sua intensidade. Muitos classificam o livro como "história de um amor amaldiçoado".

Para mim foi uma grata surpresa ter lido e me deparado com toda essa loucura e essa falta de "final feliz". Quando li a sinopse pela primeira vez, falando sobre o amor entre Heathliff e Catherine, a primeira coisa que me veio à mente foi aquela situação clichê onde o casal é separado por motivos diversos, mas que no final acabam juntos. Jamais pensei que as palavras ira e vingança seriam levadas tão a sério quanto de fato foram.

Reconheço que, por se tratar de uma obra antiga, a linguagem com que foi escrita pode contribuir com sua nuance dramática. Mas independente disso, posso afirmar que, até o presente momento, nenhum outro livro me perturbou e me encantou tanto quanto esse. Muitos criticam, dizem que não é tudo aquilo. Acredito que realmente existam pessoas que entenderam a obra perfeitamente e ainda assim não gostaram, mas defendo a ideia de que a maioria desses "críticos" simplesmente a acharam confusa demais para compreensão. Realmente é um livro bem confuso, mas que compensa total o esforço e dedicação. Foi ele o responsável por uma de minhas maiores ressacas literárias — aquele impedimento de começar outra leitura por ainda estarmos vivendo e sonhando com o mundo do último livro que lemos.

Estamos falando de um clássico inglês publicado pela primeira vez em 1847. Eu simplesmente não poderia morrer sem ler O Morro dos Ventos Uivantes!




Bônus 1:

As pessoas criticam bastante os filmes baseados em livros. Devo admitir que gostei da versão gravada em 1992, com Juliette Binoche e Ralph Fiennes nos papéis principais. Achei o roteiro bem fiel à obra original, com falas que estão presentes no livro e edições em momentos oportunos — e até necessárias para o filme não ficar longo e cansativo demais. Eis o trailer (sem legenda):



Bônus 2:

Inspirada no livro e na versão cinematográfica de 1970, Kate Bush, cantora inglesa de sucesso nos anos 1980, compôs uma música que leva o mesmo título da obra original: "Wuthering Heights". Entendemos a letra como se Catherine estivesse cantando; a música leva até algumas falas da personagem como "bad dreams in the night" e "let me in, i'm so cold". Eu, particularmente, acredito que apenas aqueles que de fato leram a obra (ou ao menos viram algum dos filmes) conseguirão sentir algo especial e reconhecer Cathy na canção. Consegui realizar essa interpretação antes mesmo de fazer qualquer pesquisa porque a ouvi logo que li o livro. Aqui está a música, dessa vez, com legenda (lembrando que existem inúmeras traduções e interpretações possíveis para o inglês no português, mas a essência da letra é a mesma):




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