segunda-feira, 20 de janeiro de 2014

Contos #07 — A Ciência Explica (suspense/terror)


Minha cama fica quase no centro do meu quarto, com a cabeceira encostada em uma das paredes sem porta e sem janela. Fica entre a parede da porta e a parede da janela. A porta está ao lado inferior direito da cama, do lado do guarda roupa, e a janela ao lado inferior esquerdo. Essa janela fica bem no alto, acima do telhado do vizinho, praticamente de frente para a porta. É uma janela de alavanca. Em frente à cama, debaixo dessa janela, fica a mesinha do computador.

Não consigo dormir sem assistir a um filme. Seja com televisão ou computador no quarto, sempre deixo algo passando, mesmo que meu sono esteja tão grande que eu não vá assistir nada nem por dois minutos. O silêncio me incomoda; me sufoca. Mas quando o sono chega, me viro de lado ou de bruços deixando o filme pra lá. Não existe forma mais confortável e aconchegante para dormir! Naquela primeira noite, me virei de lado...

Me virei para o lado da janela do quarto, ou seja, de costas para a porta. Eu estava sentindo o sono chegar de maneira muito gostosa; daquela maneira que nem um xixi incomodando nos faz levantar. Bom, não que eu fosse capaz de levantar mesmo que quisesse, e foi descobrir essa falta de capacidade que fez o aconchego se transformar em pânico. Enquanto estava nesse estado de pré sono curtindo o momento, senti como se alguém estivesse arrumando meu travesseiro. Minha mãe, claro. Ela sempre fazia isso quando eu e meu irmão éramos crianças. Mas o sono estava tão bom que não consegui me mexer para vê-la e dar um beijo de boa noite. Não consegui me mexer nem quando recobrei a consciência, lembrando que eu estava dormindo com a porta trancada. E enquanto eu sentia alguém mexendo no meu travesseiro, sem conseguir abrir os olhos com clareza e nem me mexer, o pânico foi tomando conta de mim cada vez mais. Era sonho, só podia ser sonho! Mas eu não tinha dormido ainda... Estava curtindo o momento antes de dormir, ouvindo o filme que passava ao fundo, naquele aconchego do travesseiro e das cobertas... então não podia ser sonho. Estava muito real para ser sonho! Eu precisava me virar e ver que não tinha ninguém ali. E depois de alguns longos segundos nesse sufoco, consegui me mexer. Com o coração acelerado, vi que de fato não tinha ninguém ali. É, deve ter sido um sonho.

Me esqueci do episódio do travesseiro até que, em outra noite, recebi a visita de um robô. Dessa vez eu estava deitada para o outro lado, de frente para o guarda roupa. Senti aquele sono gostoso de novo, até que um barulho estranho começou a me incomodar. Tentei me levantar para ver o que era, mas eu estava travada na cama de novo. Com muito esforço consegui abrir os olhos. A imagem era muito ruim, escura e embaçada. Mas apesar disso, consegui enxergar aquela criaturinha que zumbia e vinha em minha direção. Era um robô, com olhos redondos e brilhantes como lâmpadas. Ele vinha, vinha, vinha... Mas nunca me alcançava. Eu não sabia se era melhor manter os olhos abertos e fixos nele ou fechá-los de novo, fingindo que nada daquilo estava acontecendo. O zumbido não parava. Parecia um esmeril em uso. Parecia que estava dentro da minha cabeça. Mesmo que eu fechasse os olhos o zumbido não parava. Mais alguns longos segundos de sufoco e confusão. Quando consegui recuperar meus movimentos e enxergar tudo com clareza, olhei para a porta do guarda roupa, na direção onde o robô estava, e lá estavam seus olhos: nada mais eram do que o reflexo da tela do computador na madeira cor de marfim. Por um lado me senti aliviada por essa ilusão ter um fundamento, pois os olhos do robô estavam ali. Por outro, se eu supostamente sonhei com uma coisa real do meu quarto, não podia ser sonho. Eu de fato abri meus olhos enquanto dormia e criei tudo aquilo. Como isso era possível? E por que eu não conseguia me mexer?

Pouco tempo depois aconteceu de novo. Mas não foi uma simples sensação de alguém arrumando o travesseiro e nem um reflexo no guarda roupa que criou vida. Foi um pouco mais assustador que isso. Eram crianças cantando. Cantando como naquele filme A Hora do Pesadelo. Não aquela música em especial, mas eram meninas cantando alguma coisa lentamente e a música estava por todos os lados. A parede do lado em que eu estava virada tinha algumas sombras por conta do filme que estava passando no computador. E eu, novamente com aquela visão turva, tinha consciência disso. Mas de repente as sombras começaram a ficar estranhas. Estavam alcançando um espaço na parede onde não alcançavam antes. Também não estavam mais contínuas e sem um contorno específico. Acho que vi a sombra de algumas das crianças que cantavam. E dançavam. Mas é claro, como das outras vezes, tentar recuperar os movimentos para olhar em volta e ter certeza que não havia nada nem ninguém no quarto era inútil. Isso sempre acontecia involuntariamente, depois de segundos ou minutos que pareciam uma eternidade. E quando aconteceu pude ter certeza que a sombra do filme realmente não estava alcançando aquele espaço da parede.

Essas situações estavam ficando cada vez mais tensas. Tentei pedir ajuda para minha mãe, mas ela não fazia ideia do que estava acontecendo. Tudo que me dizia para fazer era orar antes de dormir. As vezes ela ficava um pouco comigo antes de deitar, fazendo suas orações para me proteger. Eu já estava com medo do momento em que o sono chegava. Já conseguia sentir a diferença de quando ele estava vindo da maneira normal e de quando iria me levar para esse mundo paralelo assustador dentro do meu próprio quarto. Cheguei a me dar tapas no rosto diversas vezes para afastar esse sono quando sentia que estava ficando travada novamente. Mas ele sempre me pegava...

E acabou pegando de um jeito assustador de verdade. Todas as coisas que já tinham acontecido nesses momentos não tinham sido mais do que sons e vultos. Até aquela noite. Dessa vez eu estava virada para a parede da porta, de frente para o guarda roupa. A porta, como de costume, trancada. Ao seu lado, o cantinho do quarto. E foi ali, naquele cantinho que eu vi. O vulto tinha uma silhueta perfeita. Um pouco curvo, com olhos alaranjados: única cor presente naquela visão acinzentada. Ele não saiu dali, não tentou se aproximar. E mais uma vez eu não sabia se o encarava ou se fechava os olhos ignorando aquela fantasia esperando que tudo voltasse ao normal, como sempre voltava. Tentei fechar os olhos, e uma nova sensação apareceu: eu não conseguia respirar. Era como se alguém estivesse sentado sobre mim, impedindo meus pulmões de trabalhar. O desespero ficou tão real que me recusei a abrir os olhos e, talvez, ver aquela criatura perto de mim, tentando me sufocar. Tentei me mexer de tudo quanto foi jeito. Por um segundo tive a ilusão de que consegui me sentar na cama, mas ao tentar me bater, não controlava meus braços com precisão e não sentia nada, nem um tapinha. Tentei gritar, chamar por meus pais, fazer qualquer coisa que me fizesse acordar. Mas nada adiantou. Parece que quanto maior o desespero, menor a chance de sucesso em me livrar daquela situação. Mesmo quando acreditei que estava sentada e abri os olhos levemente, procurei não olhar para o canto do quarto. Eu não queria mais ver aquela coisa, foi sufocante e assustador de verdade. Quando tudo acabou, eu estava com taquicardia e ofegante. Me levantei, fiquei um bom tempo na cozinha bebendo água e me deixando acalmar pela realidade. Quando voltei para o quarto, fui ver algum filme. Não queria deixar o sono chegar de novo.

Depois de tanto sufoco, decidi pesquisar a respeito dessas experiências e entender o que estava acontecendo comigo. Dizem que, quando temos um problema, a última coisa que devemos fazer é pedir socorro para o Google, já que muitas vezes ele trás diagnósticos equivocados e exagerados. Confesso que encontrei artigos sobre experiências onde a alma saía do corpo e outras baboseiras mais. Foi uma busca longa, já que precisei trabalhar apenas com descrições do que acontecia. Mas, finalmente, encontrei o termo perfeito: Paralisia do Sono. Trata-se de um estado pré sono onde nosso corpo se desliga antes de nossa mente. Sendo assim, ficamos travados (proteção contra lesões durante os sonhos), mas nossa mente fica consciente. O lado negativo disso são justamente as alucinações. Essas alucinações podem variar desde visões de vultos ou criaturas até sons, toques e especialmente a sensação de estar sendo sufocado. No momento senti certo alivio. Até mesmo aprendi a lidar melhor com essas experiências depois que entendi do que se tratava e como acontecia. Agora, quando acontece, sempre procuro manter a calma e lembrar que nada daquilo é real. Até me inspiro! Afinal, encontrei explicações cientificas para quase tudo. Só tem uma coisa que ainda não entendi muito bem... Em certos momentos, mesmo quando estou acordada e em plena consciência, por que ainda encontro aqueles olhos alaranjados atrás da porta olhando para mim?


Marcela Burghi Zadra, 2013

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