sexta-feira, 7 de fevereiro de 2014

Resenha #14 — ANJO a Face do Mal (Nelson Magrini)

ANJO A Face do Mal
Autor: Nelson Magrini
Literatura Brasileira
Editora: Novo Século
Páginas: 270

"A partir de dois Princípios, Ação e Oposição, fez-se a Luz. Infinitas eras após a origem da Criação, a Oposição, o Indivisível, irá se fragmentar outra vez, um fenômeno que só acontecera uma vez, em um tempo antes do Tempo, quando ainda não existia vida no Astral.
Face a isso grupos opostos têm posições extremamente contrários em relação ao fato.
Em meio às tensões crescentes, que ameaça eclodir em uma guerra sem precedentes entre Anjos e Demônios, um ser observa, um ser único, sem igual, um híbrido, possuidor das energias da Ação e Oposição.
Seu nome é Lúcifer.
Enquanto isso, na Terra, uma entidade misteriosa caça indistintamente Anjos, Homens e Demônios, guiada apenas pelo seu propósito sombrio, uma entidade que só pode ser descrita em pesadelos como a Entropia Encarnada.

É chegada a hora de Lúcifer intervir. O futuro da Existência está em suas mãos. Se falhar, apenas restará fria e desolada destruição."

Quando li a sinopse do livro, achei a proposta super interessante e original. Especialmente por ser uma obra brasileira e misturar tantos elementos sobrenaturais, em especial os orixás que fazem parte da cultura nacional.

De fato essa mistura foi bem interessante e o autor conseguiu criar um equilíbrio satisfatório entre essas criaturas, até mesmo exemplificando como se daria a relação entre elas. Porém, por outro lado, talvez o livro sofra com um certo excesso de informação. São tantos personagens anjos, demônios, orixás, outras entidades, policiais, traficantes, médicos...  e tantas cenas em lugares diferentes, que a dinâmica dos capítulos acaba ficando um tanto cansativa e sem continuidade. Em alguns momentos eu havia esquecido totalmente o que acontecera no capítulo anterior daquela mesma cena, justamente por existirem tantos personagens e tantos espaços de ocorrências.

Não que seja um livro ruim. Como disse anteriormente, a proposta é muito boa. Apesar dessa dinâmica que prejudicou um pouco meu envolvimento com a história e, por consequência, ter diminuído meu interesse pelo esclarecimento do mistério, o final conseguiu ser surpreendente e me deixar curiosa para começar a leitura do segundo volume.

Outra coisa que gostei, talvez o que eu mais tenha gostado do livro, foram as teorias religiosas que o autor criou. Lúcifer, por exemplo, não havia sido expulso do paraíso, e sim abandonado seu posto por conta própria por não concordar com o posicionamento dos outros anjos sobre algumas coisas. Ele, Satã e Satanás seriam criaturas diferentes, e o Diabo na verdade não existiria, sendo apenas uma personificação do mal criado pelos humanos. A história de que ele teria se rebelado por não aceitar adorar os humanos também não é real na obra. Na verdade, o que teria acontecido seria que, na criação original das pessoas, todos estariam fadados a viver eternamente de maneira primitiva. Ou, talvez, acabarem extintos. Lúcifer seria o responsável por nosso raciocínio e nossa capacidade de evolução e fortificação o que, se formos pensar pelo lado das crueldades existentes em nosso mundo atual, até justificaria um pouco essa invenção de que Lúcifer seria responsável pelo mal de nossa existência: o raciocínio nos permite criar remédios, como também nos permite planejar guerras.

A literatura fantástica nacional vem conquistando cada vez mais espaço no mercado. Nomes como Eduardo Spohr, André Vianco e Raphael Draccon vêm fazendo um considerável sucesso com o gênero. Gostei bastante da iniciativa, visto que sou apaixonada por livros de horror e fantasia, e vou procurar conhecer mais obras nacionais desse grupo.

Agora, para finalizar a respeito de ANJO a Face do Mal, trago um trechinho onde Lúcifer explica para Lucas sobre o real posicionamento de Deus sobre algumas coisas e quais seriam as consequências se fosse diferente:

"— Cale-se e escute — disse Lúcifer impaciente e autoritário. — Ele não fala com ninguém, nunca falou. Se falasse ou comandasse diretamente o Céu, não existiria o livre arbítrio. Se Ele falasse, qualquer coisa que dissesse seria a verdade absoluta e nem você, nem ninguém, poderiam contradizê-lo.

— Mas quem quer contradizer Deus? — perguntou Lucas, visivelmente em desespero, agora. — Seria perfeito! Ele nos guiaria, não existiria o caos, a dúvida ou o medo. Seríamos orientados e conduzidos serenamente, com segurança pela longa jornada. Seria o paraíso que tanto sonhamos!

— Seria a estagnação da própria criação. Se as coisas fossem assim, não existiriam os pensamentos criativos, as iniciativas, as descobertas, a ciência e as artes, e tudo o que faz a existência progredir. Se as coisas fossem assim, não existiria a evolução, e a criação desabaria sobre si própria, desaparecendo como se nunca houvesse existido. [...] Ele quer que interpretemos. Cada um deve descobrir a sua verdade interior e se deixar levar, sem medo ou repressões. O discernimento de cada um deve ser seu próprio freio, e a única regra que Ele determina é que todos sigam em frente sempre, sem medo e sem receio." 
(p. 69)

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