domingo, 13 de abril de 2014

As Terras de Grigorii - capítulo 02


            Quanto tempo dormiram, ninguém saberia dizer. Valentina, a primeira a acordar, percebeu que ainda era dia e a luminosidade intensa não dava o menor indício de pôr do sol. “Estranho…”, a menina pensou. “Parece que dormi tanto tempo… e nem chegamos aqui tão cedo”. Bocejou e se sentou, ainda um tanto sonolenta. Ao procurar seu balanço favorito, levou um susto.
            — Ele sumiu!!! Meu balanço sumiu!!! — falou enquanto chacoalhava os irmãos para que acordassem.
            Judite também se assustou com o tom de voz da menina, acordando rapidamente e derrubando o livro que ainda estava apoiado sobre seu rosto. Dante, que tinha um sono mais pesado, demorou um pouco para tomar consciência do que estava acontecendo.
            — O que foi, Valentina? Credo! Quer matar a gente do coração? — perguntou Judite um tanto mau humorada. — Achei que você estava sendo atacada por um gambá ou coisa assim…
            — Olha! Olha! — dizia a menina apontando na direção onde o balanço deveria estar. — Meu balanço sumiu! Alguém roubou meu balanço!!!
            — Quem roubaria um balanço que faz parte desse parque desde a criação do planeta? Aqui ainda, nesse fim de mundo onde todos se conhecem… — Dante se manifestou enquanto se espreguiçava deitado na grama.
            — Ei… Espera um pouco… — Judite levantou apreensiva enquanto olhava ao redor. — Cadê o nosso parque? Esse não é o nosso parque! Aquela não é a jabuticabeira. E essa árvore aqui está muito maior! Que brincadeira é essa, Valentina? Dante, pra onde você levou a gente? Eu não sabia que tinha dormido tão pesado ao ponto de você conseguir me carregar pra sabe-se lá onde quer que a gente esteja. Que coisa mais idiota!
            — O quê? Você acha que eu aprontei alguma coisa? — perguntou o rapaz se sentindo injustiçado. — Olha o seu tamanho, jamais que eu conseguiria te carregar, sua gorda!
            Judite já estava indo para cima do rapaz pretendendo dar-lhe uns tapas quando ouviram um barulho na árvore sob a qual estavam. Olharam para cima e viram um pica-pau. A ave, percebendo que estava sendo observada, parou seu trabalho e olhou para baixo, na direção dos observadores.
            — Oi, quem são vocês?
            Os três ficaram atônitos e se entreolharam, buscando certeza de que aquela pergunta viera do pica-pau.
            — Xiii, pela cara de vocês já vi que são daquele outro mundo. Sim, eu falo. Sim, já ouvi histórias de seres como vocês e até conheço um. Não, não sei como vieram parar aqui, só sei que tem a ver com aquela pedra ali, que se chama Gonalda. — disse o pequeno pássaro apontando uma rocha ao lado da árvore.
            — Eu lembro dessa pedra. — falou Judite, ainda com os olhos arregalados. — Tentei encostar nela para ler, mas…
            — Onde estamos? — interrompeu Dante, totalmente confuso e se sentindo bobo por estar dirigindo uma pergunta a um pica-pau.
            — Eu já respondi perguntas demais. Agora vocês se apresentem que, em seguida, respondo onde estão.
            — Era só o que me faltava! Um pica-pau querendo jogar… Acho que não acordei ainda e isso é daqueles sonhos que a gente acha que acordou. — resmungou Dante se sentando novamente na grama enquanto esfregava o rosto em sinal de cansaço.
            — Oi, senhor pica-pau. Meu nome é Valentina e esses são meus irmão, Judite e Dante. Nós estávamos brincando em um parque perto de casa, resolvemos cochilar embaixo de uma árvore e acordamos aqui. Agora, por favor, o senhor pode nos explicar onde estamos?
            — Olá, pequena Valentina. Fico feliz em ver que seus modos são bem diferentes dos modos do rapaz. Como já disse, não sei o segredo da viagem que fizeram. Isso raramente acontece, mas vez ou outra acontece. Também não sei dizer se seu mundo fica longe daqui, mas esse lugar, minha crianças, são as Terras de Grigorii.


            O pica-pau contou para os visitantes tudo que pôde sobre aquele mundo, especialmente que Grigorii era o poderoso guardião com o qual poucos se encontravam. Enquanto ele falava, Dante continuara sentado com cara de descrença, sem conseguir aceitar que estavam conversando com um pica-pau. Judite não sabia o que pensar. Ao mesmo tempo que entendia a posição de Dante sobre o absurdo daquela situação, não conseguia disfarçar o encantamento pelo animal. Já Valentina, em toda sua inocência de criança sonhadora, agia como se nada estivesse estranho ou errado por ali. Conversou com a pequena ave por muito tempo, e quanto mais conversava, mais empolgada ficava em conhecer as Terras de Grigorii e todas as outras criaturas que lá poderiam existir.
            — Até sereias?
            — Sim, menina. Está vendo aquela cachoeira no horizonte? Um pouco distante daqui?
            Valentina olhou na direção em que a asa do pica-pau apontara.
            — Não estou conseguindo ver nada…
            — Ora, veja que bobagem a minha! Você está aí embaixo, e é tão pequena… Daqui de cima dá para ver, quer subir?
            — Quero! — respondeu a menina se agarrando ao tronco da grande árvore, sendo logo interrompida por Dante, que levantou e segurou a irmã antes que seus pezinhos deixassem o chão.
            — Aonde você pensa que vai? Esqueceu o que aconteceu da última vez que tentou subir em uma árvore?
            — Mas Dante, aqui é um lugar mágico! Vai que eu aprendi a subir por magia…
            — Não acho isso uma boa hipótese, criança… — argumentou o pica-pau. — Se você não sabe subir em árvores, é melhor que não se arrisque! Posso perguntar para o cavalheiro o que aconteceu na ocasião citada?
            — O pé dela escorregou no primeiro galho e ela caiu. Por sorte estava baixo e ela só ganhou um hematoma… Até hoje escondemos isso dos nossos pais porque nossa mãe tem mania de exagerar nas coisas. Seria capaz de se desesperar e contar o caso para os vizinhos como se a menina tivesse quebrado as duas pernas.
            — Compreendo…
            — Ei, vocês dois! — chamou a menina que já se sentia excluída da conversa. — Eu quero saber onde as sereias ficam! A gente precisa ir até lá!
            — Sereias são más, Valentina! — exclamou Judite. — Elas não gostam de meninas e cantam para afogar os meninos.
            — Não as nossas amigas, Judite! — interveio o pica-pau. — Nossas amigas têm bom coração. Elas cantam lindamente, é verdade, mas são felizes e inocentes como crianças! Jamais fariam qualquer mal para vocês. Elas ficarão um pouco assustadas quando chegarem, e é capaz que se escondam. Mas quando vocês se apresentarem, farão uma bela amizade. E existem os rapazes também. São chamados tritões. No geral são um pouco mais ariscos do que as sereias, mas também são excelentes pessoas! Digo, peixeis. Digo, tritões. Ah, esse mundo é tão maluco que até eu me perco com suas criaturas…
            Dante, que já começava a sentir um leve entusiasmo pelo lugar, se propôs a subir na árvore e descobrir qual direção deveriam seguir para encontrar as sereias. Aproveitou e deu uma checada por toda a terra visível ao seu redor, e mal pôde conter o encantamento.
            — Uau! E nós achávamos nosso parque bonito…
            — Fala mais alto que não deu pra entender! — gritou Judite lá de baixo.
            — Nada não… Já estou descendo.

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