domingo, 13 de abril de 2014

As Terras de Grigorii - capítulo 04


            — Nossa, mas andamos tanto assim? Lá da árvore do pica pau elas pareciam estar tão distantes… — falou Dante limpando as mãos nas calças e se levantando, entusiasmado para, finalmente, ver as tais sereias.
            — Sim, de fato andamos muito, rapaz. — respondeu Naomo estendendo a pequena mão em gentileza para ajudar Valentina e Judite a se levantarem do chão. — É que as coisas aqui são tão bonitas que vocês nem se deram conta do tempo passando. Quantos pequenos animais falantes já encontramos pelo caminho? Você quase matou um pobre sapo esmigalhado pelo sapato, lembra-se? Se não fosse ele gritar... Logo mais já será noite; as sereias costumam cantar quando o sol começa a se pôr. Conhecê-las será nossa última aventura do dia antes de irmos para minha casa, pois mamãe já deve estar com as panelas no fogo! Vejam, eu vou na frente, converso com elas e venho chamar vocês, senão elas se assustam. Esperem um minuto.
            O homenzinho de orelhas pontudas e verdes saiu saltitando e atravessou um conjunto de árvores e altas vegetações que estavam ali perto. Não demorou muito para que o canto cessasse, mas as conversas não foram também levadas pelo vendo. O silêncio durou cerca de dez minutos até que Naomo reaparecesse um tantinho ofegante por voltar correndo.
            — Elas estão esperando por vocês!
            Os três irmão seguiram o goblin por entre a vegetação, ansiosos para verem as sereias. Quando chegaram às margens do rio e avistaram duas delas sentadas numa pedra, Valentina deu um grito e voltou correndo pelo caminho que haviam seguido. As sereias, ao contrário do que esperavam ver, não eram bonitas. Não eram moças delicadas com cauda de peixe como aparecem nos filmes infantis. Eram criaturas estranhas, escamosas. Lembravam mais extraterrestres com caudas do que qualquer outra coisa. Na verdade, uma bela fusão de peixe com extraterrestres.
            Judite, também um tanto espantada, foi atrás da irmã com medo de que a menina se perdesse. Dante também havia assustado num primeiro momento, mas agora já estava empolgado e se sentindo vitorioso — sempre dissera que, se sereias existissem, teriam uma aparência semelhante a essa, e não aquela beleza magistral que as lendas costumam narrar.
            Ele foi se aproximando cada vez mais. A pedra se localizava a um metro da margem do rio, e as sereias que ali estavam se mantinham quietas, tímidas, apenas encarando o garoto. Quando Valentina saiu gritando elas quase fugiram, mas Naomo pediu para que ficassem.
            — A criança apenas se surpreendeu com vocês, minhas amigas. Peço para que esperem que ela se acalme; ela ficará muito feliz em conhecê-las. Esse é o mais velho, Dante. Pode conversar com elas, rapaz.
            — O-oi… Vocês… Vocês são exatamente como eu imaginava que fossem! — disse ele, com certa insegurança na voz.
            Elas continuaram em silêncio, olhando para ele com uma expressão curiosa. Tombavam a cabeça de um lado para o outro, analisando Dante com aqueles grandes olhos negros — a parte que mais lembrava extraterrestres. O resto do rosto era mais humano; os lábios bem marcados e o nariz pequeno e fino. A pele delas possuía um tom acinzentado, parecendo de fato coberta por escamas. No topo da cabeça era possível perceber uma leve saliência, o que fez Dante lembrar de uma barbatana. Não tão alta quanto de tubarões e golfinhos, mas com certeza servia para ajudá-las na movimentação sob as águas. As mãos eram perfeitas. Naquele tom acinzentado e escamoso, com membranas visíveis entre os dedos, mas ainda assim eram mãos delicadas e bem semelhantes às mãos humanas.
            Quando Dante estava a um passo das águas, as duas pularam da pedra e sumiram sem dizer uma palavra. O rapaz olhou para Naomo, que apenas deu de ombros como quem dissesse “é, não deu certo”. Os dois estavam quase sumindo entre a vegetação novamente quando ouviram um barulho na água. Se viraram e uma das sereias estava de volta, com uma concha grande e brilhante na mão, estendendo na direção de Dante.
            — Ela quer lhe dar um presente de boas vindas. — sussurrou Naomo. — Vá até lá calmamente, pegue da mão dela e agradeça. Guarde com carinho.
            E assim o rapaz fez. Se aproximou com cautela, pegou a concha carinhosamente e agradeceu. A sereia sorriu e acentiu, ainda sem dizer qualquer palavra. Menos de dois segundos depois, começaram a surgir sereias de vários pontos daquelas águas. Ao menos quinze delas apareceram.
            Dante ficou boquiaberto. Olhou para Naomo, que sorria e acenava para as criaturas que iam correspondendo ao cumprimento.
            — É… — disse o pequeno. — Você conquistou a confiança delas. Agora aproveite e faça amizade!
            — Peço desculpas por termos assustado a garotinha. — disse, finalmente, a sereia que lhe entregara a concha.
            — Não… Sem problemas! — respondeu Dante, fazendo um grande esforço para não gaguejar. — É que, não sei se vocês sabem, mas no nosso mundo existem algumas histórias sobre sereias. E nessas histórias elas são… diferentes.
            A sereia com quem ele conversava deu uma risadinha.
            — Sim, nós sabemos. Na verdade, se quisermos, nós podemos ter essa aparência que vocês julgam ser bela. Faz parte da nossa magia. Mas preferimos manter a original, já que aqui nas Terras de Grigorii não há motivos para usar esse feitiço. Apenas nossas ancestrais costumavam encantar piratas maldosos com isso em defesa de nosso povo.
            — Jura? E vocês podem me mostrar?
            — Infelizmente não podemos. Se você nos visse assim, seria hipnotizado. Mas podemos cantar!
            Dito isso, uma nova canção começou. Primeiro em uma voz, depois duas… Logo estavam cinco ou seis delas cantando lindamente enquanto as outras nadavam e se acomodavam em cima das pedras próximas à cachoeira.
Dante e Naomo estavam sentados admirando o espetáculo quando Valentina e Judite reapareceram. As duas foram até eles e se sentaram também. Valentina parecia ter se acalmado. Judite conversara com ela, explicando possíveis razões científicas que faziam as sereias terem aquela aparência, como por exemplo as membranas e a barbatana que facilitariam seus mergulhos.
Os quatro permaneceram em silêncio admirando o canto. Quando esse acabou, a sereia que havia conversado com Dante chamou Valentina para perto da margem. A menina hesitou um pouco, mas agora sabia que não havia motivos para temer.
Ela foi se aproximando timidamente enquanto a sereia sorria para ela. Ao se encontrarem bem próximas, a criatura aquática pegou a mão de Valentina e disse com uma voz doce e afinada:
— Bela menina, sei que se assustou com nossa aparência. Contei a seu irmão que, se quisermos, podemos fingir aquela beleza que você conhece das histórias que já ouviu. Mas isso não seria certo. Aquela aparência atrai por hipnose; faz com que as pessoas se encantem por algo irreal e causa destruição, especialmente a nós mesmas. Temos poder para fazer isso, mas preferimos conquistar por nosso coração. Leve isso para sua vida, minha pequena: nunca finja ser quem não é para agradar alguém. Se as pessoas não gostarem de você por seu eu real, elas não merecem o seu amor. Cresça, amadureça, aprenda com a vida… mas jamais perca sua essência. Jamais deixe de ser fiel àquilo que você é e àquilo que deseja. Agora quer cantar com a gente?

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