domingo, 13 de abril de 2014

As Terras de Grigorii - capítulo 05


            — Naomo, por que você não nos avisou sobre a aparência das sereias? — perguntou Judite no caminho para a casa dos duendes.
            — Oras, e por que eu deveria? Quando você vai apresentar algum amigo a alguém, fica avisando sobre sua aparência? Que coisa mais feia! Além do que, se você olhar bem para mim, percebe que não sou nenhum exemplo de beleza para falar sobre os outros. Quer dizer, aqui eu até faço meu sucesso com algumas duendes e ninfas, mas para o padrão de vocês, humanos, eu sou um monstrinho!
            Judite ficou quieta e um tanto constrangida. Refletiu um pouco e então voltou a falar:
            — Quando eu era criança, mais ou menos quando tinha uns 7 anos, eu gostava de um garotinho da escola. Minhas amigas diziam que ele era feio, mas eu não me importava.
            — E por que você não se importava? — perguntou o goblin.
            — Porque ele era legal comigo, eu gostava da companhia dele. Toda segunda-feira ele me levava um presente: uma flor, um pirulito, um bombom, um bilhetinho… Dizia que era para minha semana começar bem. Quando eu tinha dificuldade em alguma tarefa, ele me ajudava. Uma vez, eu caí nas atividades esportivas e machuquei o joelho e o cotovelo... Foi ele quem me levantou e ficou comigo na enfermaria, contando histórias divertidas para eu esquecer da dor.
            — Ah, eu lembro dele… — comentou Dante. — Uma vez eu também te disse que ele era feio. Você jogou um sapato na minha cara e eu fiquei a semana toda com a boca inchada e o olho roxo. Mamãe nem te castigou, dizendo que era bem feito para mim e que “agora o feio da história era eu”.
            — Pois é, meus caros. — continuou Naomo. — Além do mais, o que é ser feio? Cada um tem seu gosto e sua visão de mundo. Ser feio conta apenas na aparência? Existem criaturas lindas que são más. As bruxas da fronteira leste mesmo, vocês acham que são todas feias, velhas e narigudas como nas histórias de vocês? Pois não são. Algumas delas são tão lindas que vocês seriam capazes de confundi-las com fadas! Mas são más; más ao ponto de fazer sopa de esquilo! Sendo assim, o coração delas é que é feio demais! Mas afinal… Você também achava esse garotinho feio, Judite?
            — Na verdade, não. Para mim ele sempre foi lindo!
            Naomo sorriu com a resposta.
            — E isso aconteceu justamente pela relatividade de gostos e preferências.
Os quatro continuaram a conversar sobre beleza e o quão relativo é esse conceito até que finalmente avistaram um chalé de madeira. Que encanto! Parecia uma casa de bonecas em tamanho real; possuía uma pequena varanda, dois andares e era possível perceber uma fumacinha com um cheiro delicioso saindo da chaminé.
            Os irmãos ficaram admirados com a construção. Dante perguntou como era possível algo assim ali, já que ele acreditava que os duendes vivessem em árvores ocas. Naomo contou sobre as habilidades em marcenaria de alguns dos duendes.
            — Árvores não são vivas? Achei que duendes jamais derrubariam uma árvore! — se admirou Judite.
            — Mas não derrubaríamos mesmo! Nós utilizamos as árvores que caíram durante o ataque das bruxas e das outras criaturas… Foi até uma forma de fazer com que nossas amigas continuassem desempenhando uma função por aqui. Antes disso morávamos mesmo em árvores ocas e pequenas cavernas.
            Nesse momento, uma duende saiu pela porta do chalé, vestindo um avental e com uma colher na mão.
            — Mamãe! — chamou Naomo enquanto acenava. — Eu trouxe alguns amigos para jantar conosco.
            — Estou vendo, querido! — respondeu a duende. — Pois venham logo que o ensopado está quase pronto.
           
            Antes do jantar, apresentações foram realizadas na casa dos duendes. Naomo e Gnoa, mãe adotiva do goblin, mostraram todo o chalé para as crianças. O andar de baixo era composto por uma cozinha rústica com fogão à lenha e um cantinho para conversas e descanso, lembrando uma pequena sala de estar. O andar de cima era o quarto dos duendes. Contava com dezoito caminhas, a maioria beliches para economizar espaço. Tudo de madeira, com colchões improvisados feitos de folhagens.
            — Todos os duendes das Terras de Grigorii moram aqui? — perguntou Valentina.
            — Não, querida. — respondeu Gnoa. — Aqui eu costumo cuidar dos mais novos ou dos muito velhinhos. Os duendes adultos preferem levar a vida natural, se escondendo por aí. Mas vira e mexe nos reunimos para alguns banquetes do lado de fora. Atualmente, formamos uns grupo de quarenta e sete membros! Contando Naomo, que apesar de ser um goblin, tem coração de duende.
            — E onde eles estão agora?
            — Devem estar por aí brincando com os animais, degustando frutos, nadando com as sereias… Desde que não atormentem Grigorii, deixo que se divirtam.
            — E onde vive esse Grigorii? — dessa vez a pergunta veio de Dante.
            — Nosso guardião vive em uma caverna um tanto longe daqui.
            Foi apenas isso que Gnoa respondeu sobre Grigorii e as crianças não se sentiram à vontade para fazer mais perguntas. Deixariam isso para mais tarde, quando estivesse apenas na companhia de Naomo. Provavelmente ele também seria capaz de falar sobre o tal guardião das Terras.
            Quando estavam arrumando a mesa de jantar na varanda (pois dentro da cozinha não tinha espaço para tantas criaturas), o grupo de moradores foi chegando. Muitos alegres e receptivos aos novos convidados, alguns tímidos e calados e, seguindo a regra, um deles, o mais velhinho deles, com a cara fechada e um grande mau humor. Helgo era seu nome.
            — Senhor Helgo, o que aconteceu hoje? Seus poderes de afastar energias negativas não funcionam com o senhor mesmo? — brincou Gnoa.
            — Ah, vá encher o saco de outro, vá! — resmungou o baixinho barbudo enquanto se sentava em uma das pontas da grande mesa posta.
            Quando todos estavam acomodados em seus lugares, Dante se sentindo um gigante e Valentina encantada com os duendes mais novos, Gnoa foi buscar os comes e bebes com a ajuda de Judite e mais dois jovens duendes. O prato do dia era ensopado de mandioca, acompanhado por pãezinhos macios, queijo de cabra e suco de frutas. Aos fundos do chalé, era possível encontrar uma pequena horta e duas cabras que sediam o leite. Os três irmãos perguntaram se as cabras também falavam e, em caso positivo, se elas não se importavam de doar esse leite.
            Gnoa estava pronta para explicar a eles como funcionava seu relacionamento com as cabras quando foi interrompida por uma nova visita. Uma moça, vestida como uma cigana, morena com longos cabelos ondulados, apareceu cumprimentando a todos e lamentando que não tivesse sido convidada para o jantar. Todos presentes ficaram quietos, sendo possível perceber uma leve tensão no ar.
            — Olá, Zaira. — disse Gnoa para a moça. — Você sabe que jantamos todos os dias após o pôr do sol, não precisa de convite.
            — Mas hoje é uma ocasião especial, não? Vejo que temos novidades do meu mundo por aqui… — respondeu a cigana, caminhando em direção aos três irmãos. — Que prazer ver vocês depois de tanto tempo convivendo com duendes e animais falantes! Não que eu não goste de todos eles, mas vocês entendem... Sinto saudades de humanos.
            Nesse momento ela estava atrás da cadeira de Valentina, acariciando as tranças da menina.
            — Você é a amiga do Naomo? Ele nos falou sobre você! — comentou a pequena toda empolgado, sem perceber a tensão que a presença de Zaira causara nos duendes.
            — Ah, é mesmo? — perguntou a moça, ainda brincando com as tranças da menina. — E o que ele falou?
            Seu olhar fixou-se no goblin que evitava encará-la, mantendo a cabeça baixa e os olhos no prato de sopa quase vazio.
— Nada demais. — respondeu Valentina. — Ele só disse que tinha uma amiga humana, assim como eu e meus irmãos.
Zaira então passou os olhos por Judite e sorriu para Dante.
— Eu tenho uma proposta para vocês! — disse ela, ainda sorrindo para o rapaz. — Vamos fazer uma festa da fogueira hoje, como eu costumava fazer com meu povo. Aposto que você não se importaria… Ou se importaria? — perguntou à Gnoa, que já levantara recolhendo os pratos vazios.
A matriaca pensou um pouco antes de responder. Sabia o quanto Zaira havia mudado desde quando chegou às Terras de Grigorii e fez amizade com todos. Ela não era mais tão amiga, e nem era digna de confiança perto daquelas crianças. Mas o que era possível fazer naquele momento? Negar seu pedido e correr o risco de enfrentar uma grande briga desnecessária? Além do quê, era possível contar com a ajuda dos duendes para controlar a situação.
— Tudo bem, Zaira. Faremos sua festa. Mas veja, não se demore porque as crianças precisam descansar. Tiveram um longo dia e amanhã voltarão para casa.
— Prometo que seremos breves. Sinto saudades de vocês também; será bom passar um tempo com meus velhos amigos baixinhos.

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