domingo, 13 de abril de 2014

As Terras de Grigorii - capítulo 06


            Zaira era realmente uma cigana. De alguma forma — forma essa que ninguém havia explicado claramente para os três visitantes —, ela conseguira autorização para morar nas Terras de Grigorii. Mas por que daquela tensão no ar com sua chegada? Por que Naomo havia deixado de considerá-la uma amiga? Ela pareceu tão simpática com as meninas!
            Quando Gnoa e seus ajudantes terminaram de limpar a mesa do jantar, Zaira foi logo chamando o grupo de duendes músicos para se juntarem à ela perto da fogueira. Disse que gostaria muito de ensinar Judite e Valentina como dançar feito seu povo. As duas meninas, que a princípio perceberam que havia algo estranho por ali, acabaram por esquecer dessa sensação e entraram na brincadeira com a moça. Alguns duendes também estavam participando, fosse tocando seus instrumentos, fosse dançando em volta da fogueira. Apenas alguns deles permaneceram fora da festa, mantendo um ar de preocupação. Naomo era um deles.
         Enquanto as meninas dançavam com Zaira, Dante saiu de mansinho e foi atrás do amigo esverdeado. Encontrou o pequeno sozinho na cozinha, enxugando tijelas. Esse levou um baita susto quando percebeu Dante tão próximo, derrubando uma das tijelas que estava em suas mãos.
            — Por mil fadas azuis! Você quase me mata, rapaz...
         — Desculpe. — respondeu Dante segurando o riso e se abaixando para pegar os pedaços da peça quebrada. — Eu chamei antes de entrar, não ouviu?
       — Mesmo? Não ouvi. Talvez esteja perdido demais em meus pensamentos… — respondeu Naomo  e suspirou.
          — Olha Naomo, na verdade eu queria saber o que aconteceu por aqui. Por que vocês se sentiram tão incomodados com a presença da cigana? Quer dizer, ela era sua amiga, não?
          — Era. Mas sabe como é, somos de natureza diferentes, e ela é um tanto geniosa… Acabamos por nos afastar.
        Dante, que agora estava sentado em um dos banquinhos ajudando Naomo com as tarefas domésticas, arqueou as sobrancelhas e acentiu, mas sem acreditar nas declarações do goblin.
          — Sabe, Dante… Às vezes, quando nós passamos por algum trauma na vida, nós mudamos. Pode ser para melhor, tirando desse trauma um amadurecimento, ou pra pior, vendo nesse trauma um motivo de revolta. Zaira se revoltou e mudou. Não é mais a mesma pessoa que se apresentou para nós e que aprendemos a gostar.
            — Mas que trauma foi esse? Por que ela se revoltou?
            Naomo espiou lá fora pela janela, conferindo que ninguém mais estivesse por perto. E então disse baixinho para o amigo:
            — É uma longa história, não terei tempo de te explicar agora. Mas ouça bem o que digo: não fique sozinho com ela, está bem? Jamais! Ela tem planos maldosos contra rapazes humanos. Apenas fique longe dela por essa noite, que amanhã te contarei tudo que quiser saber.
            A princípio o rapaz se sentiu um tanto incrédulo com aquela informação. O que Zaira poderia fazer de tão mau contra ele? Parecia bobagem e exagero de amigo com o coração partido. Mas, por outro lado, a expressão de Naomo ao pedir que ele ficasse longe da cigana pareceu sincera demais para levantar dúvidas. Ali havia mais do que uma simples desavença entre espécies.
            — Tudo bem. Mas e minhas irmãs? Ela está ensinando minhas irmãs a dançarem… Devo me preocupar?
            — Não, as garotas não correm perigo. Apenas cuide de si mesmo e não se esqueça: não fique sozinho com ela!
           
         O resto da noite foi regado de alegria. As meninas dançaram e se divertiram bastante. Os duendes que estavam participando da festa também pareceram nem se lembrar de qualquer problema que Zaira possa ter causado. Estava tudo em paz e harmonia, como nos velhos tempos.
        Dante, por outro lado, preferiu ficar sentado nos degraus da varanda, apenas observando. As palavras de Naomo não paravam de martelar em sua cabeça, e embora a curiosidade fosse grande, ele não poderia correr risco de sabe-se lá o quê acontecer com ele. Quem cuidaria das meninas? Quem as levaria de volta para casa?
            Quando a maioria dos duendes já estava se encostando pelas árvores de sono, Gnoa decidiu acabar com a festa e mandar todos para a cama. Zaira se despediu das meninas, exaltando o quanto estava feliz por conhecê-las.
            — Fazia muito tempo que eu não encontrava com pessoas como nós. Vocês alegraram meu dia. Muito obrigada!
            — Nós que ficamos felizes em te conhecer. — respondeu Judite, com a elegância de uma dama. — Também agradecemos a aula de dança. É encantador te ver dançar!
         — Mas vocês também dançaram lindamente! Só não entendi a razão de Dante não ter participado de nossa festa…
            As três então olharam para a escada, onde o rapaz continuava sentado, dessa vez acompanhado por Gnoa e outro pequeno duende.
            — Ah, ele deve estar cansado. Antes de virmos para nas Terras de Grigorii, brincamos de pega por muito tempo em um parque perto de casa. — respondeu Valentina. — Amanhã ele estará mais animado.
            A cigana sorriu e se despediu das meninas antes de ir embora, acenando também para Gnoa e Dante, que corresponderam ao gesto com pouca empolgação. E antes que as meninas chegassem até eles, Gnoa falou suas últimas palavras para Dante:
          — Naomo tem razão. Deixe passar essa noite que amanhã contaremos tudo a você. Agora vamos entrar e descansar.

            Como Dante era grande demais para caber em uma das caminhas, ele e Naomo improvisaram um colchão maior de folhagens na cozinha para que o rapaz pudesse dormir. E embora naquele momento o quarto contasse com apenas uma caminha vaga, Naomo foi para a cozinha fazer companhia a Dante, cedendo sua cama para uma das meninas.
         Na verdade, seu objetivo principal nem era exatamente a companhia… Naomo tinha medo que Zaira voltasse. Gnoa pediu para que o filho ficasse sempre alerta, e a qualquer sinal de perigo, batesse o sino que todos desceriam correndo em socorro.
        Dante tentou, fez mil perguntas sobre a cigana ao amigo antes que caíssem no sono, mas esse nada respondeu. E como o dia havia sido cheio de surpresas, estavam todos cansados e não demorou para que esse sono chegasse.

        A madrugada chegou. No chalé só se ouvia alguns roncos. Do lado de fora, grilos, corujas e morcegos faziam sua festa noturna. Dante, que não estava conseguindo dormir muito bem em razão dos roncos de Naomo, decidiu levantar para fazer xixi. Bem sonolento, procurou um banheiro pelas portas visíveis na cozinha. Nada. Encontrou apenas armários.
        — Mas aonde é que essas criaturas fazem suas necessidades? — perguntou para si mesmo enquanto decidia se valeria a pena acordar o goblin para fazer essa mesma pergunta.
          Decidiu ir lá para fora e fazer xixi em um matinho qualquer. Claro, era madrugada, estavam todos dormindo, que mal havia nisso?
           Quando ele saiu, Naomo acordou com o barulho da porta, mas o sono era tão grande que ele nem se mexeu. Continuou deitado, com os olhos fechados e pensando em coisas boas, buscando retornar ao seu mundo dos sonhos. Até que algo o despertou.
            — Dante!
            O goblin levantou e espiou pela janela. Enxergou o rapaz atrás de uma moita e se tranquilizou. Encostou a cabeça na mesma janela para esperá-lo, e quando estava quase dormindo em pé, viu Zaira se aproximar de Dante.
            Naomo paralizou. Queria sair correndo e espantar a moça, mas não conseguia sair do lugar. Queria gritar, mas sua voz estava presa. Queria bater o sino, mas o cordão estava longe demais.
         — Minha fadinha colorida! Mamãe… Mamãe… Ela está aqui, mamãe… — foi o máximo que conseguiu sussurrar.
          Talvez por algum sexto sentido especial das mães (mesmo as adotivas), Gnoa desceu as escadas nesse exato momento.
          — O que está fazendo na janela, querido? E cadê o rapaz?
         Naomo apenas apontou para fora, ainda sem conseguir dizer uma palavra. Gnoa se aproximou a tempo de ver Dante indo embora com Zaira.
          — Por Grigorii! — disse Gnoa com espanto, enquanto corria até o sino e o tocava com força. —  Como isso foi acontecer? Como pudemos deixar isso acontecer?
         Ao ouvir o sino, todos os duendes começaram a descer do quarto. Valentina e Judite desceram por último, muito sonolentas e sem entender o que aquele sino poderia significar.
           — Rápido, crianças! — ordenou Gnoa com voz de comando. — Dante! Zaira! Procurar! Já!
         E então todas as pequenas criaturas saíram correndo do chalé, se dividindo pelos arredores em busca do rapaz. As meninas, que passaram o tempo todo se divertindo com Zaira e não faziam ideia do que poderia estar acontecendo, se sentaram na cozinha esperando uma explicação. Naomo, que ainda se encontrava em estado de choque por não ter conseguido fazer nada para salvar o rapaz, se sentou com elas. E então, Gnoa, que estava esquentando água para fazer um chá, decidiu contar para as meninas que Dante estava em perigo.
            — Meninas, é o seguinte: Zaira tem planos perigosos para Dante. Se vocês querem ver o irmão de vocês novamente, devemos encontrá-los o mais rápido possível.
         As meninas estremeceram, ainda sem entender direito o que estava acontecendo. Judite perguntou que planos seriam aqueles e teve como resposta que aquela era uma longa história que não precisava ser contada no momento. Precisavam apenas torcer para que os duendes encontrassem os dois naquela busca, senão as coisas se complicariam.
           
            Esperaram por um bom tempo na cozinha, tomando chá e tentando manter a calma. Quando o sol começou a nascer, os grupos de duendes que haviam saído em busca de Dante começaram a voltar. Não encontraram nada, nem ao menos uma trilha que pudessem seguir. Zaira era esperta. As meninas, vendo que o irmão não voltara com as pequenas criaturas, começaram a chorar.
            — Meninas, não se desesperem! — falou Gnoa. — Ainda há uma esperança. Embora não seja de nosso costume apelar para nosso guardião, acredito que as circunstâncias pedem medidas maiores. Até porquê foi ele quem autorizou Zaira a viver aqui… Parte dessa confusão é culpa dele!
          — Mas, mãe… — espantou-se Naomo, que já estava melhorando do estado de choque. — Como vamos mandar as meninas para a caverna de Grigorii assim? Não é perigoso?
            — Perigoso por qual razão? Oras! Elas têm um bom motivo para pedir socorro. É isso ou nada; se não forem atrás de Grigorii, podem esquecer o irmão para sempre!
           — Nós vamos. — falou Valentina, sem nem precisar ouvir mais detalhes sobre a tal caverna e o tal guardião. Tudo que ela mais queria naquele momento era salvar o irmão do que quer que fosse, independente do que fosse necessário para isso.
         — Vocês têm certeza? — perguntou um outro duende que estava por perto, ouvindo a conversa.
       — Temos. — foi Judite quem respondeu dessa vez. — Não podemos nem pensar em voltar para casa sem nosso irmão. Faremos o que for preciso para salvá-lo. Onde podemos encontrar Grigorii?
        — Venham. Nós vamos desenhar um mapa para vocês. Não podemos ir junto, mas vamos explicar certinho como chegar na caverna. — respondeu o mesmo duende, pegando as mãos das meninas e levando-as até a mesa da varanda.

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