domingo, 13 de abril de 2014

As Terras de Grigorii - capítulo 08


Preparações

            Na manhã seguinte as meninas acordaram com o sol. Como prometido, voltaram até a caverna e encontraram Grigorii — ainda em forma humana —  e Rufus na companhia de outros trinta roedores, todos em volta de uma linda mesa repleta de gostosuras. Após as apresentações, todos se sentaram para comer. As meninas optaram por sentarem-se no chão mesmo, pois a mesa era tão baixinha e os bancos tão pequenos que seria bobagem utilizá-los.
            Após uma bela refeição, ao voltarem para a realidade e para a tarefa que teriam naquela noite, Valentina demonstrou grande aflição. Enquanto Rufus instruía a tropa dos camundongos a respeito do plano, Fineta, esposa de Rufus, conversou com a menina tentando acalmá-la.
            — Olhe, criança… Nunca vi Rufus se meter em qualquer assunto sem ter certeza do que está fazendo. Se ele orientou você e sua irmã, confie que dará certo! O amor é divino; amor de irmão então, nem se fala!
            — Eu sei, dona Fineta. E fico muito agradecida ao senhor Rufus também. Mas eu tenho muito medo de que nosso plano não dê certo. Como Judite e eu poderíamos voltar para casa sem Dante? — nesse momento, os olhos da pequena se encheram de lágrimas.
            — Acredite, minha filha. Tudo dará certo! Acredite. E não se esqueça: com a poção que Rufus te deu, qualquer feitiço e tudo decorrente do mesmo será desfeito. Não se esqueça!
            As garotas e os vinte camundongos preparados para a tarefa passaram a tarde descansando. Rufus repetia o plano a cada hora:
            — Vamos ficar à espreita, sabemos que Zaira vai precisar deixar o rapaz desacordado para o ritual. Provavelmente ele vai ficar no local onde eles dormem enquanto ela prepara os materiais. Nós, roedores, vamos atacar em debandada, pegando quaisquer coisas que ela esteja organizando e levando longe. Vamos esconder tudo, ela vai ficar louca, uma fera! Mas fiquem tranquilos, lembrem-se que alguns de nós até poderá levar um chute no traseiro, mas ela não pode nos ferir gravemente; fazemos parte da mesma irmandade, apesar dela ter surtado… Enquanto nós distraímos a louca, vocês meninas, busquem seu irmão! O mais rápido que puderem, assim que começarmos a gritaria vocês busquem ele. Ele não vai acordar por mais que vocês chamem ou chacoalhem. Apenas abram a boca dele e despejem o conteúdo do vidrinho bem na garganta que tudo dará certo! E o mais importante: tomem cuidado para que Zaira não pegue vocês. Vocês não, me desculpem a arrogância, fazem parte do nosso mundo. Sendo assim, ela pode ferí-las. Alguma pergunta?
            Nas cinco primeiras vezes que ele repetiu o plano, ninguém tinha perguntas. Até que, na sexta vez, Judite percebeu que faltava uma informação de extrema importância:
            — E onde, exatamente, é esse local do ritual? Quer dizer, Grigorii só nos disse que existe um local exato, mas não falou onde é…
            — Muito bem observado, bela menina. — respondeu Rufus com ar de professor. — Porém, essa informação ainda não deve ser revelada. Na verdade, nem nós sabemos ainda onde será, é tudo uma escolha da lua. Grigorii saberá na hora certa, assim que a lua aparecer.
            — Entendi. E quando devemos atacar?
            — Antes que a lua esteja exatamente acima de nós. Esse é o momento em que Zaira realizará o sacrifício de Dante para o ritual.

            Estavam todos reunidos novamente na mesa para um lanche antes da partida quando Grigorii, dando um baita susto em todos, correu para a abertura da caverna e se transformou em dragão. Rufus, com a mãozinha em cima do peito sentindo a taquicardia que o amigo lhe causara, informou a todos que a lua aparecera e Grigorii foi chamado. Valentina, vendo Grigorii em forma de dragão agora sem estar amedrontada, percebeu que ele nem era tão grande assim; não passava de três metros de altura.
            — A lua chama ele? Eles têm alguma ligação tipo o dragão de São Jorge? — perguntou Judite, com os olhos arregalados observando o dragão (ou o que era possível enxergar dele, que nesse momento estava totalmente fora da caverna).
            — Não, querida... — respondeu Fineta. — Esse dragão de São Jorge é lenda. E ele mora na lua, certo? Grigorii conversa com a lua. Não como estamos conversando agora, digamos que é algo mais parecido com visões e sexto sentido. Na verdade eu convivo com esse dragão há 137 anos e ainda não entendo bem seus poderes…
            Depois de Fineta explicar como se dava a conversa entre Grigorii e a lua, todos permaneceram em silêncio esperando que a grande criatura trouxesse a resposta que precisavam. Talvez tenha sido coisa de vinte minutos, mas para as meninas pareceu uma eternidade. Valentina não chorava mais. Após conversar com Fineta, ficara confiante de que tudo daria certo. E estava confiante de que seu novo plano era ainda melhor do que o plano inicial.
            Quando Grigorii voltou para dentro, dessa vez tomou a forma de um roedor. Estavam todos tão aflitos pela informação que ele estava prestes a revelar que as meninas nem comentaram nada a respeito dessa nova forma.
            — Atrás da rocha das sereias. Onde o pessegueiro faz sombra.
            — Mas, e as sereias? — perguntou Rufus. — Que eu saiba, esses rituais não são realizados em locais de muita habitação. Elas cantam, vai atrapalhar tudo!
            — Zaira já deu um jeito nas sereias. Elas foram passar uns dias do outro lado da ilha, perto da divisão.
            — Minha nossa senhora dos peixes! — exclamou Fineta. — Ela mandou as pobres criaturas pra perto daqueles monstros que vivem do outro lado?
          — Mandou, minha cara. — respondeu Grigorii calmamente. — Mas elas são espertas, não deixariam nada de ruim acontecer. E também, elas têm a grande vantagem de poder fugir pelas águas em caso de emergência.
             — E como vamos atravessar? — perguntou Judite. — Antes da cigana levar Dante de nós, nós conhecemos as sereias. A rocha é bem grande e irregular, como vamos passar a tempo?
            — Eu sei de um caminho. — informou Coreto, um dos roedores mais jovens que fazia parte da tropa de Rufus. — As meninas talvez encontrem certa dificuldade para passar, é um tantinho apertado… Mas dá para passar sim!
            — Ótimo! Minha querida, nos dê a cesta que praparou, por gentileza, que vamos partir. — Rufus disse para Fineta enquanto dava-lhe um beijo no focinho. — Cuide bem dos que ficam, que logo voltaremos com a vitória!
            — Grigorii também vai? — perguntou Valentina, finalmente percebendo que o dragão, que antes era um velho, agora apresentava a forma de um roedor semelhante aos demais.
            — Não posso, minha criança. — respondeu o guardião. — Meu cargo não me permite ir muito além da caverna; meu papel é manter a ordem à distância. Farei minha parte daqui.
            Após despedidas e votos de boa sorte, o grupo composto por vinte e um camundongos, contando o comandante Rufus, e duas meninas, se colocou a caminho da rocha das sereias. A caminhada duraria cerca de duas horas, com breves paradas para tomarem água. No caminho, Judite percebeu algo estranho em Valentina.
            — Por que está tão quieta? Tudo vai dar certo, não precisa ter medo.
            — Eu sei que vai. — respondeu a pequena.
        — Valentina, eu sei que a situação é complicada e é normal estarmos assustadas, mas eu te conheço muito bem. Você não falou nada desde o café da manhã. Sabe de alguma coisa que eu não sei?
            — Não, Judite. Estou apenas guardando energia para salvar nosso irmão. Só isso.
            Mesmo não estando de todo convencida, Judite decidiu que era melhor seguir o conselho da caçula e se concentrar no caminho, que foi em sua maioria bem silencioso.
            Ao chegarem na rocha das sereias, perceberam fumaça vindo do outro lado. Logo, constataram que Zaira já estava com seu acampamento montado perto do local do ritual.
            — Rufus, se nós só descobrimos onde seria o ritual através do Grigorii e sua “conversa” com a lua, como a Zaira descobriu?
            — Bela Judite, está aí algo que não saberei te responder. Mas podemos imaginar que, como ela solicitou o encanto, essa informação veio no pacote.
            — Já podemos atravessar? — perguntou Valentina, com as mãos em volta do pequeno frasco pendurado em seu pescoço; o frasco com a poção que salvaria Dante.
            — Só um minuto. — respondeu Coreto examinando a vegetação na base da rocha. — Assim que eu encontrar o lugar nós vamos.
           Não demorou para que um pequeno túnel fosse descoberto entre as folhagens. De fato as meninas não atravessaram com tanta facilidade como as pequenas criaturas, especialmente Judite que já se encontrava do tamanho de uma moça. Com dificuldade, conseguiram chegar ao outro lado. Saíram do túnel bem sujas de terra e com os joelhos um tanto ralados, mas aquilo pouco importava naquele momento. Tudo que mais queriam era levar o irmão de volta para casa.
            — Aqui estamos nós. — sussurrou Rufus. — Primeira etapa da missão concluída, chegamos ao local. Agora, vamos conversar o mínimo possível. Prestem bem atenção para que eu não precise repetir. Estão vendo de onde vem a fumaça? Dante deve estar desacordado ali por perto. O pessegueiro fica ali, do outro lado. Coreto, você acompanha as meninas até o local do acampamento e fiquem escondidos até que nos ouçam. Não podemos correr o risco de deixar Zaira encontrá-las. Apenas busquem Dante quando nos ouvirem gritar! Entendido?
            — Entendido, senhor.
          — Bom. Vocês todos, venham comigo. E lembrem-se do lema: levando chute no traseiro ou não, eu sou um valentão! Não se acovardem, as meninas precisam de nós e nossa união que fará esse plano dar certo. Levem todo o material de lá, agarrem-se na barra da saia de Zaira. Vamos segurá-la pelo máximo de tempo possível. Que a batalha comece!

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