domingo, 13 de abril de 2014

As Terras de Grigorii - capítulo 09


O Resgate de Dante

            Coreto e as meninas encontraram um lugar para se esconder por perto do acampamento de Zaira. Não conseguiram ver Dante por inteiro, mas suas pernas foram localizadas por baixo de uma tenda improvisada. A cigana não apareceu por ali nenhuma vez desde que chegaram em seus postos, o que significava que todo o material necessário para o ritual já estava perto do pessegueiro. Só faltava a peça principal: Dante. Ficaram ali esperando por uns trinta minutos até ouvirem a gritaria dos roedores.
Rufus e seus companheiros haviam se dividido por toda a vegetação ao redor do pessegueiro e ficaram observando Zaira juntar o material. Havia uma pilha de cacarecos. Nela era possível reconhecer alguns gravetos, um pedaço de tecido velho — talvez alguma roupa de Vladimir —, uma cumbuca com pó de urucum que ela usaria para desenhar os símbolos necessários, um punhal e uma cumbuca vazia, que provavelmente seria utilizada para acomodar o sangue do rapaz.
— Se bem me lembro das instruções para esse ritual — ponderou Rufus. —, só falta a flor de Gracejo.
— Aquela que fica na margem da cachoeira das sereias? — perguntou Tufurgo, um dos companheiros mais fiéis de Rufus.
— Exato. O local escolhido foi bem propício…
— Então ela vai lá buscar a flor e nós atacamos, é isso?
— Melhor não. Combinamos de gritar quando atacarmos. Vai que Coreto e as meninas avancem na missão e trombem com Zaira no caminho… A flor fica mais próxima do local da fogueira do que do pessegueiro, é perigoso que ela perceba algo estranho perto do garoto.
— Então logo que ela voltar nós atacamos?
— Logo que ela colocar a flor naquela pilha.

E assim foi feito. Assim que Zaira colocou a flor perto de todo material agrupado, Rufus deu a largada e partiu em direção à cigana, seguido pelos dezenove roedores que estavam a postos. Alguns agarraram os gravetos e lançaram longe, outros começaram a roer o tecido velho. Tufurgo foi direto para a cumbuca de urucum, tombando seu conteúdo no chão e misturando com a terra. Outro grupo de roedores grudaram na barra da saia de Zaira, com o intuito de dificultar seus movimentos.
Quando a cigana percebeu o que estava acontecendo, começou a gritar todo tipo de maldição que conhecia — assim como tentou, de fato, chutar o traseiro de alguns dos bichinhos que insistiam em tentar derrubá-la. Rufus pegou a flor e comeu todas as suas pétalas, instruindo Tufurgo a comandar o restante da operação enquanto ele iria ao encontro de Coreto e as meninas para ver se tudo estava dando certo.

Enquanto isso, no acampamento, tudo corria como o esperado. Ao ouvirem os gritos dos amigos, Coreto e as meninas correram em direção à tenda. Confirmando que aquelas pernas eram de Dante, Coreto ficou de guarda para que as meninas pudessem, finalmente, libertar o irmão daquele feitiço. Judite puxou Dante para fora da tenda e, com certa dificuldade em lidar com o peso do irmão, conseguiu apoiar a cabeça do rapaz em seu colo, para facilitar a ingestão da poção.
— Anda, Valentina. Abre o frasquinho e me dá aqui.
— Vamos logo, meninas. — disse Coreto de sua posição. — Se Zaira perceber qual a nossa intenção vai vir voando para cá. Vamos logo!
Mas Valentina não se mexeu. Manteve as pequenas mãos firmes no frasco, mas não se mexeu. Sua expressão séria mostrava dúvidas sobre o que fazer.
— Qual o problema, menina? — Judite gritou com a irmã. — Me dê logo essa porcaria, está em choque por acaso?
Sem dizer uma palavra sequer, Valentina saiu correndo dali. Judite começou a chorar enquanto gritava, tendo seus berros sufocados por soluços. Coreto pediu para que ela cuidasse de Dante e correu atrás de Valentina, sem entender nada do que estava acontecendo. Pensou até na possibilidade de algum feitiço de Zaira ter pego a menina, embora não conseguisse imaginar como.
Foi nesse momento que Rufus deu de encontro com Valentina no meio do caminho. Sem saber do ocorrido, perguntou com empolgação se tudo tinha dado certo. Mas a menina, mais uma vez sem dizer nada, passou pelo roedor e continuou indo em direção ao pessegueiro. Rufus, sem entender absolutamente nada do que acabara de acontecer, ficou parado ali até ser encontrado por Coreto, que seguira Valentina. Esse, rapidamente explicou para o mestre o que havia acontecido e os dois correram atrás da garota.
— Mas que raios deu nessa menina? — gritou Rufus enquanto os dois corriam. — Era pra ter dado tudo certo, ela vai estragar tudo! Por mil chinchilas, Zaira vai pegar essa menina e acabar com os três!
Quando os dois chegaram até o pessegueiro, encontraram Zaira caída no chão, presa pelos cipós que os companheiros conseguiram arrumar naquela confusão. Havia três ou quatro deles esfregando o traseiro — nem todos conseguiram escapar dos chutes. Valentina estava de pé perto da cigana, que olhava para ela com um ódio que nenhum deles havia presenciado desde a última batalha com os monstros da fronteira oeste. Ela continuava gritando maldições, e a menina continuava em silêncio.
— Valentina, o que você está fazendo, criança? — perguntou Rufus tentando manter a calma, com medo de que a menina esmagasse o delicado frasco que ainda estava entre suas mãos.
— O senhor disse que essa poção acaba com qualquer encanto, não disse?
— Sim, te garanto que isso vai salvar seu irmão. Mas para isso, você precisa levá-la até ele. Pelo amor de Mickey, sua irmã está desesperada!
Zaira estava cada vez mais furiosa, cuspindo em todos os roedores que estavam em volta dos cipós cuidando para que nenhum nó fosse desatado.
— Todos os feitiços criados por conta desse feitiço que iríamos desfazer também acabaria, não é?
— Sim, querida.
Rufus agora estava realmente calmo. Percebeu qual era a intenção da garota e passou a olhá-la com compreensão. Valentina, percebendo também a mudança de tom do pequeno mestre, olhou para ele com um leve sorriso.
— O Dante também estará livre. Certo?
— Certo. — respondeu Rufus com os olhos cheio de lágrimas.
A menina se aproximou da cigana, que tentou atacá-la, sendo impedida pelos camundongos que seguravam o cipó.
— Olha, Zaira — disse a menina. —, eu sei da sua história. Sei sobre Vladimir.
Quando ouviu o nome do amado, a expressão de ódio sumiu do rosto da moça, dando lugar à lágrimas.
— Eu só quero ele de volta. Eu preciso dele de volta!
— Mas você acha justo tirar nosso irmão por isso? Acha justo causar em outras pessoas a dor que você está sentindo agora? Eu sei que você não é má; sei que você não quer nos ver sofrendo.
— Eu só quero que o meu sofrimento acabe. — respondeu a cigana, encostando o queixo no peito de exaustão.
Valentina olhou para Rufus, que apenas respondeu abaixando a cabeça em um gesto encorajador. A menina abriu as mãos, revelando o pequeno frasco com a poção de Rufus.
— Olha, com isso aqui eu ia libertar meu irmão do seu feitiço. Se você quiser, eu te dou para que você se liberte do seu, e da sua dor. Mas você sabe, se você tomar, provavelmente você vai morrer, já que você existe a tanto tempo aqui sozinha… Enfim, você está presa aí, se eu quiser dar a poção para o meu irmão você não vai poder me impedir. Mas eu quero que você também se liberte do seu sofrimento.
Ao ouvir as palavras da menina, Zaira levantou a cabeça com um novo olhar. Ela não entendia o motivo daquela garota, que nem a conhecia e que nem fazia parte daquele mundo, querer seu bem. Olhou bem nos olhos de Valentina, procurando alguma mentira naquilo tudo que ela havia dito, mas só enxergou doçura. Sorriu e novas lágrimas surgiram.
— Se eu tomar isso aí, vou poder encontrar meu Vladimir mais uma vez?
— Quem sabe… Esse mundo é mágico, às vezes a morte é apenas uma passagem para uma nova vida. No nosso mundo algumas religiões acreditam nisso, embora eu não acredite muito. Mas aqui, poxa, eu tomei café da manhã preparado por camundongos e um dragão que vira o que quiser! Tudo pode acontecer!
Zaira continuou sorrindo enquanto a garota retirava a tampa do pequeno frasco. Levou até os lábios da moça, que tomou a poção toda em apenas um gole. Os companheiros de Rufus soltaram os cipós, deixando as mãos da moça livres, que ela pôde levar até a menina.
— Obrigada. — ela disse segurando os dedos de Valentina, enquanto essa lhe dava um beijo no alto da cabeça.
Ao fechar os olhos, o corpo de Zaira começou a emanar uma luz muito forte. Todos tamparam os olhos até que essa luz baixasse. E então, onde antes estava deitada uma linda cigana, existia agora um belo arbusto de azaléias vermelhas.

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