quarta-feira, 16 de abril de 2014

Contos #08 — No Subsolo (suspense/terror)

O lugar parecia uma estação de metrô. Eu não sabia como tinha ido parar lá e nem o que estava esperando. A luz era fraca e falha, como daquelas lâmpadas fluorescentes de baixa voltagem. O barulho ao fundo me fez ter certeza que estava numa estação de metrôs, mas não consegui enxergar nenhum. E nem pessoas. O lugar estava completamente vazio e eu nem consegui saber se era dia ou noite, pois metrôs são subterrâneos. Comecei a caminhar para ver se encontrava alguma escada. Nada. Só mais do mesmo. Trilhos vazios e alguns portões enferrujados que dividiam sessões.

Em meio ao vazio, finalmente vi alguém ao longe, e pela roupa parecia uma freira. Decidi me aproximar, afinal, que mal uma freira poderia me fazer? A mulher estava de costas, e quando cheguei cerca de cinco metros de distância, ela começou a se virar vagarosamente. Olhou para mim, que já havia parado de caminhar. Sua face que aparentava uns 80 anos era inexpressiva, e assim ficou pelos dois segundos seguintes. De repente, seus olhos começaram a refletir um brilho avermelhado e subumano. Ela abriu a boca e dentes pontudos e desconexos ficaram a mostra. O medo daquele imagem e um grito estridente me fez sair correndo em disparada. Eu corria e a freira corria atrás, gritando e sem apresentar qualquer dificuldade com o hábito pesado ou a idade avançada.

Eu não encontrava uma escada nem um portão, nada que pudesse me proporcionar fuga. Corria sem olhar pra trás, apenas ouvindo os gritos da velha, o barulho dos trilhos ao fundo, minha respiração descompassada e meus passos desesperados. Aqueles gritos ecoavam pelo barracão totalmente fechado e extenso. Quando percebi que não conseguiria correr por muito mais tempo, avistei um portão que dava para uma pequena sala com uma escada rolante. Entrei ali e fechei o portão o mais rápido que pude, e consegui fazê-lo antes que a freira me alcançasse.

Ao chegar ali, a velha agarrou as grades e me olhava com ódio, rosnando como se fosse um animal. Os olhos, ainda com o reflexo avermelhado, pareciam penetrar em minha alma, e por mais que eu tentasse, não conseguia desviar meu olhar deles. Foi então que, por algum motivo, levei a mão até o bolso de minha calça e retirei de lá um crucifixo. Ao levantar o objeto, a velha enlouqueceu mais uma vez, gritando enquanto aqueles dentes monstruosos ficavam a mostra, levando as mãos por entre as grades em minha direção, como se quisesse me agarrar a qualquer custo. Quando consegui quebrar aquela hipnose e decidi subir as escadas, um tique acusou o portão sendo aberto. A freira parou de gritar, olhou para a trava que havia se soltado, olhou para mim e deu um sorriso diabólico. Recomeçou a gritar enquanto abria o portão e avançava em minha direção. 

Quando senti as garras da velha fincando em meu braço, acordei suada e ofegante, em plena madrugada, em minha cama. Com o braço levemente dolorido.



Marcela Burghi Zadra, 2013.

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