segunda-feira, 9 de junho de 2014

Contos #09 — Webcam (suspense/terror)


Não me lembro qual foi a última vez que usei a webcam do meu notebook. Na verdade, ela sempre deu problema para funcionar — costumo ter azar com aparelhos tecnológicos. No começo, quando ela ainda funcionava uma vez ou outra, eu tinha uma certa paranoia. Deixei um pedaço de papel colado em sua lente por muito tempo, com medo de que fosse observada sem consentimento. Vai saber?!

Um dia precisei levar o notebook para a faculdade e tirei aquele papel horroroso de lá. Talvez eu devesse ter me importado menos com o que as pessoas fossem pensar daquele meu improviso...

Ainda tentei ligar a câmera outras vezes, mas ela nem ao menos era reconhecida pelo sistema. Desencanei de vez, tanto de tentar utilizá-la quanto de tentar me esconder dela. Se não funcionava, eu iria me esconder do quê? Passei a agir normalmente na frente do notebook.

Eu comia ali na frente.
Eu ria, cantava, chorava.
Eu me despia, me vestia, me admirava.
Eu até arrotava.
Eu agia como qualquer pessoa age quando está protegida pelas capas da solidão; da privacidade.
Ninguém estava me vendo. Aquela câmera não funcionava.

Um dia recebi um e-mail. O assunto dizia: "Oi... a webcam tá com problema???".
Automaticamente enxerguei aquela mensagem como mais uma propaganda querendo me vender produtos eletrônicos. Eu sempre recebo inúmeras propagandas por conta de meu cadastro em lojas virtuais. Selecionei esse e-mail, um que dizia "Hoje é dia de games! Clique e confira." e outro que prometia 15% de desconto em livros didáticos de qualquer editora com a intenção de excluí-los quando notei os remetentes. Reconheci o remetente dos games e dos livros didáticos, mas o remetente sobre a webcam era novo. Não possuía nome de gente nem de loja. Não me fez lembrar de sites conhecidos nos quais eu pudesse já ter feito um comentário e registrado meu endereço. O remetente era uma sigla sem qualquer referência plausível. Pelo menos não encontrei nada no google à respeito daquelas letras na época...

Analisei novamente o assunto. "Oi... a webcam tá com problema???". "Tá"? Nenhuma propaganda usa linguagem informal dessa forma. Chequei o antivírus e abri a mensagem.

Gelei.

O arquivo possuía um anexo onde o título indicava que fossem fotos minhas.
No corpo do texto, li o seguinte:

Você já parou pra pensar que não consegue controlar sua webcam porque o controle dela está nas mãos de outra pessoa? 

Não se preocupe, apenas eu tenho essas imagens. Jamais mostraria para qualquer pessoa. São minhas! MINHAS!

Ah, e também não te faria nenhum mal. Não se você colaborar.

Ainda em choque, mexi nas imagens. De fato eram fotos minhas. Trechos de vídeos congelados. Imagens vergonhosas. Imagens que me fariam matar alguém para que não fossem divulgadas. Não sei o que era mais assustador: olhar para mim mesma naquelas situações embaraçosas ou reconhecer que outra pessoa possuía aquelas imagens e me vigiava há não sei quanto tempo.

Eu precisava pedir ajuda. Será que a polícia descobriria quem estava por trás daquela mensagem?
Tremendo, abaixei a tela do notebook e cacei papel e durex pelo quarto. Nunca foi tão difícil encontrar alguma coisa naquela bagunça!
Quando encontrei o que precisava e levantei a tela para tapar a câmera antes de tomar qualquer outra atitude, vi que tinha recebido uma nova mensagem daquele mesmo remetente:

Não adianta ir até a polícia. Não temos FBI, estamos no Brasil... Bom, pelo menos você está. Meu procedimento é seguro. Você jamais vai conseguir me encontrar enquanto eu não quiser que você me encontre. Apenas aceite minha companhia virtual e ficamos todos bem.

Colei o papel naquela câmera e sentei. Respirei fundo, não parava de tremer. Morava sozinha, e mesmo que alguém estivesse lá comigo, eu não sei se seria capaz de pedir ajuda naquele momento. O choque me paralisou totalmente. Minha vontade era tacar aquele notebook no chão, pisando nele até não sobrar qualquer possibilidade de funcionamento ali.

Mas quem era aquela pessoa?
O que ela seria capaz de fazer se eu detonasse o notebook e acabasse com aquela brincadeira?
Já vi filmes de terror o suficiente para saber que, às vezes, as coisas podem ser bem mais complicadas e perigosas do que parecem. Tentei responder a mensagem:

Por que está fazendo isso? Por que eu?

Não tive resposta alguma.
Guardei o notebook numa gaveta e pensei em não usá-lo mais, mas eu precisava dele. Maldito seja o novo século onde nossa vida gira em torno de um computador! Eu precisava estudar ali, trabalhar ali, e não tinha condições de comprar outra máquina tão cedo.
Não tive escolha. Precisei resgatá-lo e tentar usá-lo normalmente, acreditando que aquele papel em frente à câmera seria o suficiente para me proteger de quem quer que fosse o maluco das mensagens. Mas não demorou muito para que uma nova mensagem chegasse à minha caixa de entrada:

Acho que já chega de brincar de esconder, heim...

Respondi:

Então me mostra quem você é.

Recebi de volta:

Touché! 
Mas não é assim que se brinca.
Aqui sou eu quem decide quem se esconde e quem se mostra.
E eu estou mandando você tirar qualquer que seja a porra que você tenha colocado na frente dessa câmera.

Respondi mais uma vez:

Não posso. Dessa vez quebrei de vez minha cam.
Por favor, pare com isso! Sua vida é tão monótona ao ponto de você precisar se divertir me vendo arrotar e limpar o nariz com cara inchada parecendo urso? Me poupe! E em sites pornôs você encontra meninas muito mais bonitas do que eu sem roupa, não entendo o que você quer comigo...

Fiquei sem resposta por dias. Achei que tinha vencido no argumento.
Até que, uma semana depois, minha mãe me ligou desesperada pedindo ajuda. Meu irmão de 12 anos havia sido espancado enquanto voltava da escola. Corremos para socorrê-lo e eu nem sequer lembrava que computadores existiam. E ele não sabia dizer quem havia feito aquilo ou o motivo, já que não levaram nada dele e ele nunca foi de arrumar brigas na escola. Na verdade ele dizia não ter visto ninguém se aproximar antes de acordar todo machucado na calçada.

Passado o susto, voltei para minha casa.
Quando fui checar a caixa de e-mail, vi que o maluco havia retornado:

Seu irmão acha melhor você tirar essa porra da frente da câmera, ou vou te obrigar a filmá-lo dentro de um caixão.

Nada poderia explicar meu desespero naquela hora. Eu deveria pedir socorro? Deveria avisar meus pais? Prender meu irmão dentro de casa? Ligar para a merda da polícia? 

No desespero, enviei uma mensagem de suplica. Meu estado naquele momento era tão crítico que não lembro das palavras exatas, mas sei que pedi para que ele ficasse longe da minha família, pois eles nadam tinham com isso e nem sequer sabiam do que estava acontecendo. Pedi para que ao menos me explicasse o porquê de estar fazendo aquilo, já que minha vida em frente ao notebook era extremamente monótona e que qualquer reality show culinário conseguia ser mais interessante.

Ele me respondeu.
Me respondeu com um texto enorme e muitas imagens, explicando tudo que eu precisava saber sobre aquela situação. Me respondeu dando informações que eu, na verdade, não gostaria de ter.
Me respondeu com palavras que tiveram a capacidade de me suscitar emoções das mais diversas, do pavor à afeição.

Não posso contar o que era, assim como não posso revelar seu endereço de e-mail. 
Não me permitiria traí-lo dessa forma. Não hoje que estamos tão bem... 

Nunca mais grudei papéis na câmera. 
Nunca mais me arrumei para sair sem fazer uma dancinha.
Nunca mais me senti sozinha no silêncio de minha casa.
Nunca mais deitei para dormir sem acenar para a tela do notebook.
Nunca mais sequer fechei meu notebook.

Você se lembra de ter me visitado alguma vez? Bom... Te garanto que não estávamos sozinhos.


Marcela Burghi Zadra, 2014.

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