sexta-feira, 20 de junho de 2014

Contos #10 — Aquele Sorriso Torto


Ela me mandou uma mensagem dizendo que estava na cidade e queria me ver. Puxa, quem diria! Nascemos no mesmo ano, fomos vizinhos e melhores amigos desde sempre. Numa brincadeira, ela foi meu primeiro beijo e eu o dela. Fomos inseparáveis por 14 anos, até o pai dela falecer num acidente e a mãe resolver se mudar para a casa da avó, no estado vizinho. Essa época foi terrível! Ainda que eu estava perdendo só a melhor amiga, mas ela havia perdido o pai, estava perdendo o melhor amigo e toda uma vida construída por aqui.

Graças à tecnologia — que, convenhamos, se limitava a telefone e SMS naquela época — conseguimos manter contato por um tempo. Até cheguei a viajar e passar um natal com ela, mas como estávamos crescendo e, não sendo mais crianças “poderíamos aprontar”, a avó começou a embaçar com isso. Não me deixou mais ir pra lá e nem ela vir pra cá. Aos poucos nosso contato foi enfraquecendo, até sumir de uma vez.

Há algumas semanas ela me encontrou no facebook. O perfil não tinha muitas fotos e nem informações sobre ela, ela sempre foi uma pessoa reservada. A única foto ali presente mostrou que nos últimos quinze anos ela não mudou muita coisa. Talvez esteja com uma ruguinha embaixo do olho, talvez um ou dois fios brancos no cabelo disfarçados por uma tintura mais clara que o cabelo original, mas o sorriso torto que sempre me encantou parecia continuar ali.

Bom, após eu aceitar o pedido de amizade, trocamos duas mensagens de “quanto tempo, tudo bem, como vai a vida etc.”, mas nada de grandes informações. Ela disse que logo viria para minha cidade resolver umas pendências da antiga casa — a qual passaram a alugar após a mudança — e queria aproveitar para me ver e contar as novidades da vida pessoalmente. Foi estranho e aconchegante ao mesmo tempo. Eu não falava com aquela garota há quase quinze anos, mas ela agia como se tívessemos nos despedido pela última vez na semana passada.

Pois bem, ela veio. Marcamos um encontro num restaurante perto do meu serviço, no qual eu costumava ir sempre após o expediente. Cheguei lá dez minutos antes do combinado e cacei uma mesa. Não sabia ao certo o que pensar. Será que o clima ficaria estranho? Será que sentiríamos um soco de vazio por todos esses anos distantes? Será que ela conseguiria manter o clima familiar da conversa pelo facebook pessoalmente também? Será que ela achou que eu havia mudado muito? Será que aquele sorriso torto ainda iria me encantar?

Quinze minutos após minha chegada, ela apareceu na porta. E... estava gorda. Gorda feito um mamute depois de almoçar três vezes. Tudo bem, sem exageros, ela não estava obesa, mas estava gorda. Uma bolinha escondida por baixo de um vestido estampado e esvoaçante, o que dá a sensação de mais volume ainda. Me controlei para não fazer cara de espanto, focando apenas na alegria de rever minha antiga melhor amiga.

Ela chegou na mesa, me levantei para recebe-la com um abraço. Não encostei direito nela, fiquei acanhado. Mas ela me deu aquele sorriso torto. Ah, aquele sorriso torto…

Claro, sou educado, não mencionei nada sobre sua mudança drástica na forma física. E sinceramente, após os primeiros minutos de conversa eu já estava tão entretido e tão (re)encantado por aquele sorriso, velho conhecido, que nem sequer lembrei do que estava por detrás daquela mesa, escondido por baixo do vestido e da toalha.

Passamos umas duas horas conversando, rindo, relembrando… Para ajudar eu ainda tomei um vinho. Ela recusou, preferiu ficar no suco e pareceu estranhar quando ofereci a bebida. Tentei me lembrar se ela nunca foi de beber ou se ela, talvez, pensasse que aquele vinho era uma tentativa de sedução. Ora, por que não?

Já eram quase dez da noite quando ela, no meio de uma conversa sobre relacionamentos antigos e sonhos para o futuro, olhou bem na minha cara e perguntou:

— Você não vai falar nada sobre mim?

— Sobre você...?

— Caramba, Gustavo… Eu nunca pesei mais do que 50 quilos quando éramos amigos, não se faça de besta! Não notou nada de diferente em mim?

— Mas…

— Mas o que? Vai falar que só porque fiquei velha é normal ter uma barriga desse tamanho?

— Não, eu…

— Você…?

— Eu não queria ser rude… Como eu ia comentar: “e aí Fabiana, engordou heim, puta que pariu! Tá parecendo uma jamanta!”

Ela ficou muito séria, até levantou uma sobrancelha. Não gostou da minha piada. Tá, não foi uma piada, foi uma escrotisse de péssimo gosto.

— Foi mal, eu não quis ser grosso. Você entendeu... Eu não queria comentar que você tinha engordado, mulher nenhuma gosta disso. — me desculpei com a cabeça abaixada.

— Gustavo?

Levantei a cabeça, correspondendo ao olhar fixo que ela me lançava. E consegui enchergar ainda mais charme do que vinha enchergando até então.

— Eu tô grávida.

— O-oi? — gaguejei. Agora sim, por essa eu não esperava.

— Sim. Isso aqui olha — ela disse, se afastando com a cadeira da mesa enquanto colava o tecido do vestido na barriga, deixando uma pele redondamente firme bem marcada — não é gordura ou velhice acumulada. É um bebê. Tá vendo meu umbigo saltado? Nasce em menos de dois meses.

Burro! Desde quando uma pessoa engorda tanto assim só na barriga? Tudo bem, o resto dela está um tanto inchado e esse vestido larguinho não deixava a barriga bem marcada. Mas ainda assim…
Continuei em silêncio, com a boca aberta, ouvindo aquela rajada de novidades espantosas.

— Não foi planejado e acabei descobrindo quase aos quatro meses. Não me pergunte como consegui ser tão relapsa! Mas o fato é que vou me casar daqui um ano e, como você sabe, meu pai já morreu. Como depois dele você sempre foi o cara mais importante da minha vida, vim te convidar para me levar até o altar. Você aceita?

Levar até o altar. Ela. Vou levar a Fabiana até o altar. Entregar ela pra outro cara. Minha melhor amiga, minha paixão antiga.

— É… C-claro que eu aceito, Fabiana. Vai ser uma honra!

Ela voltou a sorrir. Aquele sorriso torto; meio doce, meio escrachado. E eu percebi ali que realmente estava velho. E também percebi ali que a Fabiana ia se casar e que aquele sorriso torto tinha um novo melhor amigo e companheiro. Um outro cara roubou o posto que, apesar do tempo e da distância, eu acreditava ser meu para sempre. Aliás, roubou não... Simbolicamente e literalmente, eu estava entregando Fabiana a ele. Percebi ali que, se um dia eu tive alguma chance real com ela, esse dia tinha ficado no passado de vez.

Ah, quem dera ela realmente tivesse apenas engordado...



Marcela Burghi Zadra, 2014.

4 comentários:

  1. Adorei! Olha, acho que você devia divulgar mais o seu blog, tem histórias ótimas! Eu mesmo já li umas 4 ou 5 crônicas suas! Parabéns! Você tem futuro!

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    1. Obrigada! É muito bom receber elogios assim, ainda mais dessa forma inesperada (já que realmente não costumo divulgar). Pretendo levar ele mais a sério com postagens mais frequentes assim que terminar a faculdade esse ano :)

      A nível de curiosidade, se você voltar e puder me dizer como veio parar aqui hoje (já que realmente faz tempo que não compartilho links), ficarei feliz em saber!

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    2. Olá! Sou eu novamente, o anônimo ali de cima rs. Cheguei até o blog pelo seu facebook, e cheguei até o seu facebook por um grupo no mesmo. Lá, eu e você trocamos um comentário, no fim eu te passei meu TCC, lembra? rs Bom, o meu interesse pelo seu blog veio do meu gosto também pela escrita fantasiosa e romanceada. Costumo escrever bastante também, contudo, não acredito que seja bom o suficiente pra publicar rs. Enfim, gostei bastante dos seus contos (meu preferido, "A Ciência Explica"). Já pensou em escrever algo mais extenso, como um livro?

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    3. Ah, sim! Ainda não tinha aberto sua mensagem no e-mail porque queria esperar terminar o estágio, que anda meio corrido, pra poder ver seu trabalho com calma mesmo. E que legal, fico feliz quando acontece de alguém chegar no meu blog por curiosidade mesmo... Uma das razões que me fazem não divulgar é que existem tantos blogs por aí, tanta gente que fica pedindo visitas, tenho medo de ser chata como algumas dessas pessoas acabam sendo, sabe? hahaha

      Sobre você não achar suas escritas boas pra publicação, vou me dar o direito de pedir pra ver alguma coisa, se você se sentir à vontade rs. Do livro, já comecei alguns esquemas, mas ainda não consegui me manter interessada na mesma história por muito tempo e acabo abandonando... Quem sabe quando A IDEIA aparecer rs

      Adicionei no facebook! :)

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