domingo, 10 de agosto de 2014

Contos #11 — Ponto de Ônibus


Gabriel perdeu o ônibus.
De novo.
Assim como acontecia toda quinta-feira, depois da aula do professor Nogueira, aquele cara simpático que adorava fazer piadas sarcásticas durante a aula e fazia questão de segurar os alunos até dez para as onze da noite. Afinal, ele tinha o direito de dar aula até essa hora. E quem se atravesse a sair antes do horário, ficaria apenas com meia presença.

Sendo assim, caso Gabriel quisesse alcançar o ônibus no horário, com toda certeza seria reprovado na disciplina por ausência. Ele poderia pedir ao professor para sair com dez minutos de antecedência, mas eram justamente nesses dez minutos que ele sempre informava o que deveria ser estudado para a aula seguinte e como deveria ser estudado.

— Lamento, mas você não poderia perder minhas explicações toda semana e eu não vou mudar a rotina de minha aula pela necessidade de um aluno. Dê um jeito de arrumar carona ou sei lá, suborne o motorista para enrolar dez minutos, quem sabe.

Sim, foi isso que ele ouviu quando tentou explicar sua situação para o professor.
Porém, mesmo depois de quase três meses nessa rotina, Gabriel, no fundo, guardava uma esperança de conseguir chegar à tempo toda semana. Mas toda semana o maldito do ônibus passava na hora certa, e ele era obrigado a esperar no ponto até meia noite, rezando para que chegasse em casa vivo e com os materiais da faculdade em mãos.

Não, ele nunca tentou subornar o motorista. Primeiro porque ele não teria dinheiro para investir nisso; e segundo que ele procurava manter sua dignidade a todo custo. Só esperava, realmente, que essa dignidade não custasse sua vida naquela escuridão solitária que parecia quase assombrada.

Sentado no banco do ponto com um livro de História da Arte nas mãos, ele percebeu alguém se aproximando. Já sentiu um frio no estômago; era raríssimo aparecer alguém ali naquele horário. Nos arredores só havia sua faculdade e pontos comerciais, que, obviamente, estavam fechados.

Olho ou não olho?, pensou ele, aflito. Melhor não olhar. Se for me assaltar ele já vai chegar chegando, não tem ninguém aí pra impedir. Se não for e eu olhar, posso dar ideia. Presta atenção no livro, Gabriel, no livro! Onde eu estava? Ah, sim… Mesopotâmia… blá blá blá… câmaras funerárias…. Sério?!

  Ei! — chamou a pessoa estranha que havia sentado na outra ponta do banco. A voz parecia de uma garota.

Ainda apreensivo, com os ombros tensos e encolhidos, o gorro da blusa na cabeça com a esperança de ficar invisível, ele virou um pouco o rosto e olhou para quem quer que fosse o assaltante-barra-assassino em potencial. Ou assassina.

— O que você tá lendo? — era uma garota, de fato.

— Um livro da faculdade — ele disse, voltando os olhos para as páginas cheias de conteúdo, do qual ele não conseguia absorver nenhuma informação naquele clima de tensão.

— Hum… — ela respondeu.

Ficaram em silêncio pelo que pareceu horas, mas talvez tenha sido uns cinco segundos.

— E é sobre o quê? — ela perguntou de novo, com uma voz que aparentava tédio.

— História da arte. Uma chatice — se ela pretendia roubar o livro, depois dessa definição talvez pensasse duas vezes.

— Hum… — ela respondeu mais uma vez.

Mais um pouco de silêncio.

— Você tem horas? — mais uma pergunta vinda da garota.

Entendi. Ela quer ver se meu celular vale a pena ser roubado.

— Esqueci o celular em casa — pronto. Mais uma evidência de que ele não tinha nada que valesse a pena o esforço de um assalto. Não que muito esforço fosse necessário. Se ela lhe apontasse um canivete, era capaz de que ele lhe entregasse até as cuecas.

— Mas você tá de relógio… — ela observou, parecendo confusa com aquele argumento. — Não está funcionando?

— Ele é porcaria, vive parado — ele disse, olhando para o relógio e torcendo para que mais aquela desculpa desse certo. — Mas agora está funcionando sim, são onze e trinta e sete.

— Hum…

— …

— E que horas o ônibus passa?

— Meia noite.

— Puts.

— Pois é.

— Você sempre pega ele nesse horário?

— Não. Hoje dei azar com o professor enrolado.

— Hum…

Ele já se sentia um pouco mais à vontade naquela situação, mas a ideia de ser uma cilada e de repente sair uma gangue de algum lugar pra lhe dar uma surra e levar até sua cueca lhe passava pela cabeça a todo minuto. Consequências de ter uma mãe paranóica.

— Você tá com medo de mim? — sim, essa pergunta saiu da menina.

Ele deu uma engasgada antes de responder. Será que sua cara de pastel deixava isso tão óbvio?

— Por que teria medo? Imagina… Somos apenas dois estranhos, sozinhos na rua, quase de madrugada, esperando um ônibus.

— Você não respondeu a minha pergunta.

— Essa pergunta é uma cilada? Do tipo, se eu responder que não você vai dizer que eu deveria ter, ou se eu responder que sim você vai responder que é com razão? Sério, porque se você for me assaltar, já aviso: minha mochila só tem um caderno, duas canetas, meu documento e dois textos xerocados; meu tênis não custou mais de 90 reais há mais de três anos; esse livro é da biblioteca da faculdade e tem mais ácaros do que valor de revenda. Ah, e meu relógio é de camelô.

Ela riu e sentou de frente pra ele, com as pernas cruzadas em cima do banco.

— Sério? Você vai pagar o ônibus como, então?

— Cartão de estudante. Que se você quiser pra me deixar quieto eu te dou, mas só tem uns onze reais de crédito e eu vou pedir, por gentileza, que me deixe pegar o ônibus de volta pra casa essa noite.

— Mas você disse que só tinha o documento na bolsa. Se omitiu sobre esse cartão, pode ter omitido sobre outras coisas de valor também… — ela parecia estar se divertindo com o desafio.

— Ele está no meu bolso, não na minha bolsa. Está junto com duas balas melequentas que eu ganhei de uma amiga na aula de hoje. Mais alguma pergunta, senhorita?

Nesse momento ele já havia fechado o livro e virado de frente para ela no banco também, se sentando com as pernas cruzadas e as costas arqueadas numa tentativa de sustentar a mochila sem ter onde se encostar.

Ela sorriu e tombou a cabeça de lado.

— Qual o seu nome?

— Gabriel.

— Eu sou a Sonia — ela disse, estendendo a mão para ele, que retribuiu o gesto. — E a propósito, o celular que você esqueceu em casa tá brilhando no bolso da sua blusa. Melhor atender… Pode ser a mamãe preocupada.

Ai, merda!

Ele voltou a se sentar direito no banco e pegou o celular. De fato, era sua mãe. Sonia também voltou a se sentar direito, colocando o gorro na cabeça e balançando as pernas como uma criança faria.

Gabriel, então, atendeu a chamada:

— Oi mãe. É, de novo. Calma, mãe. Calma. Eu sei. Já tentei, não adiantou. Uhum. Não. Não. Uhum. Claro… Sei. Pode deixar. Não, não vai ligar pro tio coisa nenhuma! Não. Uma menina. Não sei. Sim, tá tudo bem. Espero que não... Calma, é brincadeira! Pode deixar. Outro mãe, outro. Tchau, tchau.

— Ela achou que eu fosse uma assassina? — perguntou Sonia com um meio sorriso.

— Algo do tipo… — ele respondeu, sorrindo pela primeira vez desde que ela chegou naquele ponto.

— Mães… Sinto saudades da minha.

— Posso perguntar por quê? Ela faleceu ou…

— Não, não. Ela não mora aqui na cidade. Ninguém da minha família, na verdade.

— Entendi. E o que você faz perdida por aqui? Aliás, não só em outra cidade, mas literalmente aqui, nesse lugar, numa hora dessas… Nunca te vi na faculdade, então acredito que você não seja de lá. E espero em Deus que você não seja realmente uma assassina planejando me esquartejar antes que o ônibus chegue!

Ela continuava sorrindo, olhando para as unhas enquanto pensava em uma resposta.

— Você é muito cagão, sabia? Era muito mais fácil eu ter medo de você do que você de mim. Sabe como é, mulher sozinha à noite por aí, nesse mundo violento e machista dos infernos…

— Obrigado pelo elogio. É normal que meninas bonitas me chamem de cagão e coisas parecidas poucos minutos depois de me conhecerem.

Ele estava tentando ser engraçado, mas acabou soando como ofendido tristonho.

— Desculpa, não quis ofender.

Estavam nessa quando um farol apareceu ao longe.
Era o ônibus, finalmente.



Marcela Burghi Zadra, 2014.

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