domingo, 31 de agosto de 2014

Resenha #21 — Peidoces (Raymond Bean)

Peidoces
Título original: Sweet Farts
Autor: Raymond Bean
Editora: Novo Século
Páginas: 110

"Alguém anda soltando puns como louco na escola, e todos pensam que o culpado é o pobre Keith Emerson. O garoto até ganha um apelido: S.M.M. (Silencioso, Mas Mortal). Para piorar as coisas, o pai de Keith é uma 'máquina de puns' assumida, responsável pelo fedor de seu lar.

A feira de ciências está se aproximando, e Keith decide resolver de uma vez por todas o seu problema. Ele tem a brilhante ideia de transformar o insuportável odor do pum humano em algo realmente cheiroso.

Com a ajuda de sua irmãzinha Emma, de seu fedorento pai, de sua vovó um tanto pirada e de Benjamin Franklin (sim, do famoso cientista americano), Keith tentará chegar a maior de todas as descobertas da ciência: a cura do peido."


Que livro interessante! Fiquei intrigada com o título de primeira quando ele surgiu na página inicial do Skoob em lançamentos e logo adicionei à minha estante. Encontrei na Bienal (ele é justamente da editora que fez minha alegria no evento) e não pensei duas vezes pra comprar.

Como futura pedagoga, minha resenha vai ser voltada para um lado mais pedagógico da obra. A leitura foi feita dividida entre o divertimento livre de uma leitora comum e o pensamento profissional de como seria bacana trabalhar esse livro com alunos na faixa de 8 a 10 anos. Sendo assim, vou soltar uns bons spoilers, mas como livros infanto-juvenis geralmente são bem previsíveis, acredito que isso não vai ser problema. Os pontos que vou levantar aqui não substituem de forma alguma a diversão que essa leitura nos traz.

Keith, aparentemente um garoto tímido, anda sofrendo na escola com as acusações e as brincadeiras de mau gosto pra cima dele a respeito de puns. Juntando isso com as práticas comuns de seu pai em poluir a casa com frequencia e um incidente onde sua irmãzinha solta um pum bem na sua cara, ele decide aproveitar a oportunidade da feira de ciências pra desenvolver um projeto para que os puns passassem a ter um cheiro agradável. 

Num primeiro momento ele foi ridicularizado pela classe e causou incredulidade no professor, que o mandou para a diretoria. O diretor fica intrigado e também acredita ser uma brincadeira estranha, mas decide que vai pensar no assunto. No outro dia, o diretor chama Keith para conversar e está todo animado com a proposta, pois lembrou que há mais de 200 anos Benjamin Franklin desafiou cientistas para que conseguissem mudar o cheiro ruim do peido (sim, vou escrever peido porque a palavra é usada com bastante frequencia no livro e percebi que nem é uma palavra tão feia assim...). Esse desafio foi, de certa forma, uma brincadeira. Mas, por que não?! Então, o diretor não apenas autorizou como incumbiu Keith de desenvolver esse projeto. Afinal, na ciência, o que vale é a tentativa; o sucesso é consequência.

Pois bem, agora vamos às análises.

Primeiramente vou falar sobre a questão social presente na situação. Soltar pum, ou peidar, é uma coisa natural, mas bem constrangedora. O livro diz que é constrangedora justamente por cheirar mal e incomodar as outras pessoas. Keith sofre o chamado bullying por toda a escola ao ser acusado de soltar puns fedorentos na sala de aula, sendo que ele sabe que foi justamente o garoto que senta à sua frente e que foi o primeiro a acusá-lo — além de organizar "armadilhas" posteriores para que a zoeira com o garoto continuasse. Adultos sabem lidar melhor com a situação. Aprendemos a segurar a vontade até estarmos sozinhos ou, caso algum escape, o mais comum é que ninguém se manifeste, fingido que nada aconteceu. Mas as crianças, como sabemos, são espontâneas. Tanto sobre o controle quanto sobre a reação. Sendo assim, acredito que o livro seria uma forma de abordar o assunto de maneira divertida com a classe, mostrando que é uma coisa natural e, ao mesmo tempo, realmente desagradável. Pode ensiná-los a pedir para ir ao banheiro quando necessário, como também a não fazer alarde caso um escape na sala de aula, por exemplo.

Agora, sobre o lado científico do projeto, eu fiquei curiosa para pesquisar a respeito dessa carta de Franklin, assim como para pesquisar qual a razão exata de puns e cocôs serem fedidos. Lembro de algum professor do ensino médio falar que, ao contrário do que muita gente pensa, não é a comida que "estraga" e passa a cheirar mal. O que cheira mal é o ácido que produzimos para realizar a digestão. Mas, por outro lado, por que será que, dependendo do que comemos, o cheiro fica pior ou... menos pior? São questões que interessariam os alunos a realizarem pesquisas assim, justamente por se tratar de um assunto "polêmico", que acabaria despertando um interesse maior. Nessa parte, só o final do livro que se volta mais para fantasia literária, já que acabam (depois de um bom tempo e com a ajuda de um cientista que ficou interessado na proposta de Keith) conseguindo inventar balinhas que deixam o cheiro do pum agradável. Bom, pelo menos por enquanto, isso não existe (que eu saiba)... Mas quem sabe?!

O que achei mais interessante de maneira geral foi o incentivo à tentativa. Keith teve medo de que as pessoas dessem risada da sua ideia, depois teve medo de não conseguir desenvolver o projeto e, quando realmente não conseguiu, ficou com vergonha do fracasso. E nessas horas, até sua mãe que não gostou nada da ideia (que afirma não soltar pum porque "damas não fazem isso" e nem gosta da palavra "peido") o incentiva dizendo que, o que valeu de verdade, foi a determinação que ele teve em levar a ideia adiante e tentar. Como também é dito mais de uma vez no livro, a ciência é feita de tentativas! Muitas fracassadas, mas se não fossem as tentativas, o sucesso com novas descobertas e evoluções também não aconteceria.

Eu não costumo me interessar por leituras infanto-juvenis fora do âmbito profissional, mas esse foi um caso de interesse genuíno. Tudo bem, a polêmica do título que chamou a minha atenção, mas ainda assim eu guardava aquele pontinho de desconfiança no fundo de que o livro seria meio bobo e não alcançaria minhas expectativas como leitora. Mas no fim alcançou tão bem que acabei justamente levando para o lado profissional. E quando eu me formar, se eu for trabalhar com crianças com mais de 8 anos (acredito que essa idade seja a ideal porque o livro é meio longuinho e as propostas de pesquisas são mais elaboradas), meus alunos conhecerão Peidoces, sem dúvidas!

Ah, e achei o título traduzido bem mais charmoso que o original.

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