quarta-feira, 24 de dezembro de 2014

Contos #12 — Ceia de Natal (suspense/terror)

Esse conto possui uma segunda parte.
Após a leitura, não deixe de conferir O Dia Seguinte.


Foram oito anos. Oito anos dedicados ao amor de Bárbara. Oito anos em que Bruno acreditou ter encontrado seu par ideal, a mulher com quem iria casar, ter filhos e envelhecer ao lado. A mulher que sorriu para ele na sala de espera de um consultório médico em uma tarde nublada, situação das mais improváveis para se encontrar a alma gêmea. A mulher que ainda era uma garota com seus 18 anos recentes. Garota que ele viu evoluir e se tornar uma mulher incrível. Incrivelmente filha da puta, que resolveu chutar seu rabo três dias antes do natal. Bruno pretendia pedi-la em casamento no próximo reveillon, mas de uma hora para outra viu sua vida virar de cabeça pra baixo.

Naquela noite, 24 de dezembro, ele deveria estar na casa de seus pais, com Bárbara ao seu lado, se fartando de chester e salpicão enquanto ouvia seu irmão contar piadas infames e sua irmã reclamar da merda da internet que não estava funcionando direito no celular. Mas não dessa vez, não neste ano.

Quando recebeu uma resposta de Bárbara para as inúmeras mensagens que havia lhe enviado desde o término, resposta onde ela aceitava encontrá-lo no início daquela noite, a esperança tomou posse de seus sentidos e ele acreditou que a teria de volta. Fora apenas um surto, uma confusão momentânea nessa época onde as pessoas costumam questionar suas vidas e planejam mudanças que nunca chegam a se concretizar. Talvez ela tivesse desistido justamente por pensar que ele nunca a pediria em casamento. Já passara dos 25 anos e, em sua família tradicional, não era comum uma mulher chegar aos 30 solteira — a menos que fosse morrer assim.

Ele foi para o encontro com lágrimas nos olhos, sorriso esperançoso nos lábios, e a caixa com as alianças no bolso. Tudo seria resolvido e aquele pesadelo de três dias teria fim.

Qual não foi sua surpresa quando Bárbara fugiu de seu beijo e disse que apenas aceitou encontrá-lo por ele ter sido parte importante de sua vida. Ter sido, no passado, o que significava que não era mais. Ela disse que ele merecia um abraço de "feliz natal" e uma última chance de dizer tudo que gostaria, já que isso o ajudaria a aliviar o coração e aceitar o fato de que eles haviam rompido. Definitivamente. Meu coração não te pertence mais, não tenho culpa, não posso escolher meus sentimentos, ela dissera. A quem pertencia então? Ela disse que não havia outra pessoa, que o sentimento por ele apenas foi se perdendo até não existir mais nada além da tal consideração. Pois que ela enfiasse a consideração naquele lugar!

A conversa que tiveram estava confusa na cabeça de Bruno. Ele não conseguia lembrar dos detalhes, de tudo que disse para Bárbara, nem do caminho que fez de volta para casa depois das horas que passou fora. Horas, minutos, segundos... Quanto tempo durara cada etapa daquela noite? Algumas dessas etapas pareciam intermináveis, embora conscientemente ele soubesse que talvez não tenham durado mais do que quinze minutos. Tudo lhe passava na mente em flashes enquanto ele chorava em desespero sentado no chão de sua cozinha, ao lado da porta que levava para a garagem. Os vidros dessa porta estavam rachados agora, resultado da violência com a qual fora fechada assim que ele colocou os pés dentro de casa. A secretária eletrônica acusava mensagens que só poderiam ser de sua mãe, perguntando onde raios ele estava que ainda não tinha aparecido. E enquanto ele estava lá, perdido, entregue ao desespero, recebeu mais uma.

Bruno, eu sei que você deve estar triste por causa de toda a história com a Bárbara, mas ficar enfiado em casa não vai ajudar, filho. Vem pra cá, você se distrai, dorme aqui se quiser. Não vou te buscar porque não posso deixar os convidados à mercê do seu pai e ele já encheu a cara pra eu mandar que vá até aí, mas venha, estou te esperando! Mamãe te ama.

Piiii.

É mãe, eu sei que ama. E também sei que é injusto esse amor não me bastar agora...

Secou as lágrimas e resolveu se levantar. Seu rosto deixou o desespero de lado e se tornara inexpressivo, com olhos perdidos na calmaria instantânea. Foi até o quarto e colocou sobre os cabelos úmidos de suor o gorro de Papai Noel que vestiria para ir à casa dos pais, como fazia todos os anos. Voltou para o carro e, do porta malas, tirou a caixa de isopor que carregava seu prato principal daquela noite. Pela primeira vez em seus 28 anos, ele iria cozinhar sua própria refeição natalina.

Bruno sabia que não demoraria muito para descobrirem o corpo de Bárbara embaixo daquele banco na Praça dos Guerrilheiros, e, nas atuais circunstâncias, ele seria o suspeito principal. Mas não importava. Nada mais importava. Meu coração não te pertence mais, ela dissera. Pois agora pertencia, ninguém negaria esse fato. Ele fez questão de arrancá-lo do peito dela com as próprias mãos, contando apenas com a ajuda do canivete do seu chaveiro. E agora, aquele coração que foi uma de suas principais razões de viver por tanto tempo, seria o prato principal da melhor Ceia de Natal que Bruno já comera na vida.


Marcela Burghi Zadra, 2014. Feliz Natal!

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