quinta-feira, 25 de dezembro de 2014

Contos #13 — O Dia Seguinte (suspense/terror)

Esse conto é continuação de Ceia de Natal.
Para melhor compreensão, sugiro leitura prévia da primeira parte.


Na manhã de 25 de dezembro, Julio levou seus dois filhos e sua sobrinha para a Praça dos Guerrilheiros. As crianças ganharam bicicletas de natal e estavam doidas para experimentar o presente. O homem sentou-se em um banco onde estava fazendo sombra, pegou uma revista de arquitetura do bolso, já que pretendia reformar  a casa no próximo mês, e pediu para que as crianças não saíssem da praça e nem fossem muito longe de sua vista.

Estava empolgado na sessão de churrasqueiras quando avistou a menina correndo em sua direção, chamando insistentemente tio, tio, tio...!, apresentando excitação e medo na voz. Um dos meninos deve ter caído e se ralado todo, só pode... pensou ele, deixando a revista de lado e se levantando para ir de encontro com a sobrinha.

— Tem uma moça lá... — a menina estava ofegante, mal conseguindo completar uma frase sem maltratar os pulmões cansados — ... debaixo do banco. Parece que está dormindo, mas a gente chama e ela não acorda! — Novas ofegadas. — E na roupa dela... Acho que é sangue.

Julio acompanhou a menina até onde os meninos estavam, ambos sentados no banco que ficava de frente para o banco onde se encontrava o corpo de Bárbara. Igor, o mais velho entre as três crianças que tinha então 13 anos, lhe disse enquanto segurava forte a mão do caçula:

— Ela está meio roxa, pai. Não acho que esteja dormindo... Vou com eles pedir picolé na casa da dona Toninha enquanto o senhor... Enquanto o senhor vê o que faz.

O homem, mergulhado em um silêncio incrédulo e sem conseguir tirar os olhos do corpo da moça, concordou com o filho e lhe deu dinheiro para os picolés. Pediu para que o mais velho explicasse o ocorrido para dona Toninha e que ficassem por lá até que ele fosse buscá-los. Assim que as crianças começaram a se afastar, pegou o celular e ligou para a polícia.


***

Bruno havia dormido no tapete da sala. Acordou por volta das onze horas, com uma garrafa de vodca quase vazia e o prato com os restos da Ceia de Natal ao seu lado. Demorou um pouco para que ele recobrasse a consciência de quem era, onde estava e o que havia acontecido nas últimas 24 horas, mas quando isso aconteceu, não sentiu remorso algum. A cabeça doía intensamente num misto de ressaca e toda a pressão vivida na noite passada, todo aquele choro e aquela explosão de insanidade. Em cima do sofá estava sua carteira e seu chaveiro, com o canivete repousando inocentemente. Não havia ali nenhum rastro de todo o sangue pelo qual fora responsável há tão pouco tempo; Bruno fez questão de lavá-lo antes de começar qualquer atividade culinária. O gorro de Papai Noel que ele usara em sua ceia particular também estava jogado ali perto, exalando um cheiro levemente azedo que fez Bruno lembrar de ter ido correndo até o banheiro para vomitar antes de conseguir comer o prato todo, utilizando em seguida o gorro que estava em sua cabeça para limpar a boca. Sua mente talvez tenha se tornado psicótica, mas seu estômago não conseguiu acompanhar.

Não sabia por quanto tempo ficou ali no chão antes de se levantar para tomar um analgésico, mas após o último gole de água, ouviu batidas na porta seguidas pelo aviso de que se tratava da polícia. Bárbara havia sido encontrada.

Ele não questionou, nem tentou fingir surpresa ou preocupação. Apenas se deixou levar, desfrutando com honra do seu direito de ficar calado. No caminho até a delegacia, começou a se lembrar dos detalhes que lhe haviam sumido da memória. Lembrou de quando se ajoelhou aos pés de Bárbara pedindo uma segunda chance e dela mandando que ele levantasse porque aquilo era ridículo e desnecessário. Lembrou de lhe mostrar as alianças e, por um milésimo de segundo, perceber um vislumbre de encanto nos olhos dela, fazendo-o acreditar, mais uma vez, que ganharia essa batalha. Mas também não funcionou. Ela apenas começou a chorar e pedir perdão por estar fazendo aquilo com ele, mas que não tinha como voltar atrás, não adiantava, ela queria mais. Queria algo que não encontrava mais ao lado dele. Depois ela pediu que ele fosse embora porque ela precisava se arrumar e ir passar a véspera de natal na casa de uma amiga. Seus pais haviam morrido há cinco anos em um acidente de carro e ela não tinha mais ninguém. A família dele praticamente a adotou, mas não foi suficiente para ela. Não. Aquela vaca insatisfeita... Mas ao invés de ir embora, ele levou as mãos até o pescoço da moça, apertando até que ela sufocasse. Ele não sabia da força que tinha até aquele dia; nem imaginava que seria capaz de sufocar alguém apenas com as mãos, mesmo uma moça pequena e frágil como Bárbara. E depois disso, veio a remoção do coração. As poucas aulas de anatomia que teve na vida lhe ajudaram a lidar bem com a situação, tirando o órgão da caixa torácica sem danos. Quer dizer, sem danos fora o rompimento dos vasos e artérias que mantinham o coração ligado ao corpo.

Dali algumas horas, na sala do interrogatório, o tenente Tobias perguntaria ao rapaz qual a razão de ter levado o corpo até a praça, sendo que a moça morava sozinha e todo o trabalho fora feito em sua casa. Ele se manteve em silêncio, mas sabia, assim como o tenente também sabia: ele queria que ela fosse encontrada. Ele amava Bárbara e, apesar de ser enterrada sem o coração, ela merecia um enterro digno logo. Não queria que ficasse apodrecendo em casa, sozinha, até sabe-se Deus quando alguém desse por sua falta e mandasse verificar o local. E no lugar do coração, ele deixou as alianças, de qualquer forma.

Ao chegarem na delegacia, Bruno foi entregue ao tenente Jorge Tobias, principal responsável por interrogar suspeitos de assassinato. Foi levado até aquela salinha que só conhecia através de filmes, onde podia-se encontrar uma mesa e duas cadeiras. Mas aquela sala não tinha um espelho mágico. Em vez disso, contava apenas com um pequeno vidro na porta, onde um outro policial montava guarda pelo lado de fora, e uma câmera de segurança em um dos cantos superiores. Foi posto sentado em uma das cadeiras, com as mãos algemadas em cima da mesa para que o tenente começasse seu trabalho.

— Você sabe o porquê de estar aqui, não sabe?

Silêncio.

— Ela foi encontrada por crianças, sabia?

Silêncio.

— E você sabe que se você fosse um suspeito qualquer eu não poderia te algemar assim. Mas eu sei que foi você. Só preciso do resultado da equipe de investigação forense antes de te enfiar numa cela. E saiba que aqui no Brasil, pessoas que fazem coisas como essa raramente são encaminhadas para clínicas psiquiátricas onde são tratadas com amorzinho e atenção. O negócio aqui é cadeia, pura e simples. E com essa sua carinha de bom moço, vai fazer sucesso lá dentro, e não de uma forma agradável.

Silêncio.

— Mas, se você confessar antes que eu tenha qualquer prova contra você, eu economizo meu tempo e sua barra pode ser aliviada. Não que eu concorde que um assassino mereça essa colher de chá, mas é a lei...

Bruno continuava em silêncio, inexpressivo, com o olhar fixo na mesa de forma quase catatônica. O interrogatório seguiu-se por algum tempo, com Tobias utilizando das mais diversas táticas em busca de uma confissão, mas Bruno se manteve impassível, se movendo apenas quando foi intimado a olhar nos olhos do tenente enquanto esse lhe dirigia a palavra.

Em determinado momento, outro policial foi até a janelinha da porta e chamou por Tobias. Esse, após alguns segundos do lado de fora atendendo ao chamado, voltou para a sala com passos ainda mais firmes.

— Veja só, que coisa! O corpo da moça foi encontrado sem coração e com uma caixa de alianças no lugar. E acabei de ser informado que encontraram restos de... comida... um tanto suspeitos na sua casa. Com uva passa, Bruno? Você matar uma garota por dor de corno ainda vai, isso acontece com bastante frequência, mas comer o coração dela no natal com uva passa? Em 20 anos de carreira já vi muita coisa, mas sua história é no mínimo bizarra... Bom, como você pode perceber, as evidências estão cada vez mais contra você e os resultados não vão demorar a chegar. Você tem pouco tempo pra mostrar um pingo de honra nesse seu caráter de merda.

Outra batida na porta e Tobias foi novamente atender ao chamado. Dessa vez, a mãe de Bruno estava lá e exigia ver o filho. O delegado autorizou, parece que conhecia a mulher ou algo assim. Tobias informou que ela tinha apenas cinco minutos. A mulher, com um mini panetone na mão que havia também sido liberado pelo delegado, disse que seria suficiente e lhe agradeceu antes de entrar na sala.

Ao dar de cara com a mãe, Bruno começou a chorar feito criança. A mulher, com ar sério e destemido, se aproximou da mesa, colocou o panetone na frente do filho e sentou-se na cadeira à sua frente.

— Guardei pra você — disse num tom frio.

— Mãe... Eu... 

— Cala a boca e come. Eu não vim até aqui ouvir explicações, até porque a única coisa que poderia sair da sua boca que me faria bem nesse momento é não fui eu, mas eu sei que foi.

Bruno, numa tentativa dúbia de agir feito um filho bom e obediente, começou a comer o panetone mesmo tendo a sensação de que a cada engolida sua garganta estava sendo dilacerada e seu estômago sofrendo um bombardeio. Acreditou que aquele gesto da mãe foi uma forma de lhe mostrar que, apesar de qualquer coisa, ainda era sua mãe e o amava. Demonstrou cuidado e dedicação.

— Sabe, Bruno... Quando eu casei com o seu pai, sonhava em formar uma família grande e linda. Ao engravidar do seu irmão, a alegria não me cabia. Depois veio você, e por último a Bia. Nós sempre nos demos muito bem apesar dos problemas normais da vida, vocês cresceram bem, tornaram-se adultos responsáveis... Eu consegui realizar meu sonho.

— Mãe... — tentou o rapaz mais uma vez, com a boca cheia.

— Já mandei calar a boca — ela intimou, num tom de voz mais alto e rude. — Até hoje eu acreditei que havia conseguido tudo que mais desejava na vida, mas você fez questão de mostrar que a coisas não podem ser assim tão perfeitas para alguém. Mas acontece, meu filho, que eu não posso aceitar ser mãe de assassino. Eu não posso aceitar me sentir culpada ao esbarrar com qualquer moça por aí, inclusive com a sua irmã, e pensar na Bárbara. Não... Eu não posso aceitar.

Ao ouvir tudo isso, Bruno sentiu um aperto mais intenso no peito. Não sabia ao certo se era no estômago ou no coração. Se curvou a tempo de vomitar no chão uma mistura de panetone com sangue. E a cada contração devido ao vômito, mais a dor se intensificava.

— Existem culturas onde as pessoas matam os bebês que nascem defeituosos. Infelizmente o seu defeito só apareceu agora e eu não teria mais chance de te sufocar com um travesseiro e fingir que foi um acidente.

Os policiais, ao perceberem o que estava acontecendo, começaram a bater na porta tentando arrombar, pois a mulher havia roubado a chave e trancado discretamente assim que entrou. Mas eles não conseguiriam salvar Bruno. Nada poderia. Ele agonizava, vomitando as tripas no chão, já quase inconsciente, conseguindo viver tempo suficiente apenas para ouvir as últimas palavras que sua mãe tinha para lhe dizer.

— Se alguém aqui tem que ir para a cadeia, que seja eu. Pelo menos irei com a consciência limpa, ciente de que não foi tarde demais para reparar meu erro e destruir o monstro que eu mesma pari.



Marcela Burghi Zadra, 2014.

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