quinta-feira, 11 de dezembro de 2014

Resenha #23 — It: A Coisa (Stephen King)

It: A Coisa
Título original: It
Autor: Stephen King
Editora: Suma de Letras
Páginas: 1104

"Foi em 1958, na pacata Derry, que Bill, Richie, Stan, Mike, Eddie, Ben e Beverly aprenderam o real sentido de algumas palavras. Durante as férias escolares, descobriram o que significava amizade, amor, confiança e... medo. O mais profundo e tenebroso medo.

Naquele verão, eles enfrentaram pela primeira vez a Coisa, um ser sobrenatural e maligno que deixou terríveis marcas de sangue em Derry.

Quase trinta anos depois, os amigos voltam a se encontrar. Uma nova onde de terror tomou a pequena cidade, e somente eles serão capazes de enfrentar a Coisa. O tempo é curto. Mas eles irão até o fim, mesmo que isso signifique ultrapassar os próprios limites."


Para todos que acompanham minhas postagens no facebook ou já tenham conversado sobre livros comigo, não é novidade nenhuma que eu sou fissurada em Stephen King. Não consigo apontar ele definitivamente como meu autor favorito porque existe muita gente boa por aí, como por exemplo o próprio filho do King, Joe Hill. Mas a minha paixão por seus livros é tão grande que eu nunca senti segurança para escrever uma resenha deles (apenas uma introdução sobre A Torre Negra), da mesma forma que, somando quase 20 livros lidos do mestre, eu não conseguia apontar um favorito. Isso, até hoje. Eu sei que ainda existe muita coisa dele para ser lida (mas muita, muita, muita mesmo!) e que essa opinião ainda pode mudar... Mas A Coisa tem grandes chances de manter esse primeiro lugar no meu coração para sempre.

Por que tanto amor? Vou tentar justificar...
A partir daqui podem surgir spoilers, mas prometo que nada que faça o livro perder a graça e que entregue desfechos. Apenas referências leves de algumas cenas e personagens para dar mais profundidade aos comentários.

Pra começo de conversa, o que é a Coisa? Uma versão de bicho papão, que aterroriza uma cidade toda, pessoas de todas as idades (em especial crianças e adolescentes), escolhendo a melhor maneira para tal em casa situação. Ao mesmo tempo em que usa de sua imagem principal (Pennywise, o palhaço dançarino) para atrair crianças e... comê-las (???), ela pode aparecer como o lobisomem do filme de terror que os meninos viram no cinema; como um pássaro gigante; um tubarão onde não deveria estar; uma espécie de mendigo zumbi... E entre os adultos, como não acreditam mais nesses monstros, a Coisa age através da violência e de desastres, como um pai que espanca o filho até a morte ou um bar que pega fogo e mata dezenas de pessoas.

De onde a Coisa veio? Quem sabe ao certo?! 
Vamos apenas admitir que ela é a representação geral do medo e do mal. Algo que vai muito além de questões religiosas, antes que alguém pense em campará-la com demônios ou coisa parecida. E essa Coisa dorme. Ela age por alguns meses a cada 27 ou 30 anos.

Em Derry, foco de ação da Coisa, conhecemos sete crianças na faixa de 10 e 12 anos. Todos eles apresentam características que os tornam alvo de gozações. Bill é gago, Richie é o engraçadinho "quatro olhos", Stan é judeu, Mike é negro, Eddie é asmático e tem uma mãe paranoica, Ben é gordo, e Beverly é a desleixada filha do zelador.

São personagens tão reais, tão bem construídos, tão únicos... É impossível não imaginar o tom de voz de cada um deles, assim como é impossível não sentir na pele o que eles sentem, tanto em situações do dia a dia normal quanto em situações criadas pela Coisa. Cada um tem sua fraqueza, assim como cada um tem seu ponto forte e seu papel importante no desenrolar da história. No começo não eram amigos. Até se conheciam da escola, mas o destino os colocou juntos por alguma razão. 
Para fechar o círculo, a força. 
Os 7. 
Os Otários. 
Os Sortudos.

Em 1958 eles pararam a Coisa e juraram que, se um dia ela voltasse, eles também voltariam para terminar o serviço e acabar com ela de uma vez. E ela voltou. Mike, o único do grupo que continuou morando em Derry depois do ocorrido em 1958, liga para todos eles dando a notícia. E a partir daí vamos sendo cada vez mais envolvidos pela história de cada um e de todos eles juntos, reconhecendo um pouco de nós mesmos em cada um deles, como adultos e como crianças. É possível perceber traços de maturidade se desenvolvendo neles enquanto crianças, com a responsabilidade de salvar a cidade nos ombros enquanto enfrentam seus maiores medos e não podem contar com mais ninguém a não ser com eles mesmos. Da mesma forma, é possível perceber o medo e a impotência infantil neles quando adultos, revivendo todo aquele pesadelo pelo qual passaram (e que, por alguma razão tinha sido apagado de suas memórias com o passar dos anos), enquanto se preparam para enfrentá-lo de novo.

E infelizmente, o grupo vai sofrendo desfalques.

O livro todo é narrado de três formas: acontecimentos da infância deles; acontecimentos atuais; e o diário de Mike, onde ele junta fatos (pesquisas e entrevistas que ele faz com moradores e em jornais sobre a cidade e acontecimentos históricos dali, buscando explicações e padrões), pensamentos e sensações sobre tudo que vai acontecendo. Nem sempre a mudança de época é dividida por um novo tópico ou capítulo, então é necessário uma leitura bem atenta para não fazer confusão, embora a narrativa seja leve e bem dinâmica, de fácil entendimento.

Existem cenas pesadas, sim. Especialmente para pessoas muito sensíveis ou moralistas. Eu me peguei com o cenho franzido em muitas partes da leitura, fosse por espanto, nojo ou pura tensão. Mas mais do que isso, é indescritível o quanto conseguimos sentir o amor, companheirismo e cumplicidade real entre as crianças; sentimentos esses que se mantém depois, entre os adultos. A forma como essa cumplicidade vai se construindo, como cada cena deixa claro que cada um deles está realmente disposto a dar a própria vida pelos outros se assim for necessário, é capaz de tocar o coração de qualquer um. 

Não sei se foi intenção do King ao escrever esse livro e construir tais personagens, já que preferi não ler muita coisa sobre ele antes de terminar a leitura para evitar spoilers pesados. Mas o fato é que o bicho papão, de certa forma, fica em segundo plano. Esse livro, muito mais do que um livro que fala sobre monstros, medos e mortes, é o maior exemplo de amizade verdadeira que eu já vi na vida.



Sobre o filme de 1990: "Uma obra prima do medo"

Há uns anos eu peguei esse filme pra ver. Não conseguiu me prender muito e não cheguei na metade. Achei meio bizarro, o que é justificável a julgar pela data de produção e pelo conteúdo (os filmes mais antigos baseados em obras do King sempre têm esse ar bizarro meio trash, na minha opinião).

Quando comecei a ler o livro, peguei o filme novamente para ajudar na visualização de algumas coisas. Em relação aos personagens, fiquei apaixonada pelas crianças, em especial pelo Richie e pelo Eddie (que são meus favoritos, aliás). Mesmo com o livro fazendo algumas descrições diferentes do filme, como no livro o Bill ser ruivo e mais alto enquanto o Richie é loiro e no filme ser o oposto, eu não conseguia mais ler sem visualizar aquelas crianças. Tim Curry como Pennywise também convence muito bem! Os adultos já não são lá aquelas coisas, mas nada tão ruim que dão dê para levar numa boa.

Bom, o filme não é fiel ao livro, como já era de se esperar. Embora tenha algumas cenas, falas e peculiaridades fiéis, no geral é uma adaptação bem censurada e simplificada. As cenas mais pesadas não passam nem perto de acontecer; em algumas cenas acabaram trocando personagem (por exemplo, no livro o Ben adulto vê o Pennywise na biblioteca enquanto no filme é o Richie); inventaram algumas cenas e situações que não existem no livro; o confronto principal das crianças com a Coisa do filme é uma mistura de encontros que tiveram com ela no livro, e a forma de ataque escolhido para o filme foi o mais simples deles; e o final, quando os adultos enfrentam a Coisa, ficou muito mais prático e, como dito antes, com cenas mais tensas censuradas.

De qualquer forma, vale a pena assistir, especialmente depois que já se leu o livro. As crianças conseguiram passar grande parte de toda aquela cumplicidade que sentimos durante a leitura. É possível sentir uma amizade real ao vê-los juntos. E, claro, palhaços macabros são impagáveis!

Agora estão preparando outra adaptação do livro. Gravações começam em março de 2015 e o filme será dividido em dois: o primeiro contando apenas sobre a infância deles e o segundo com eles adultos. Será que estou ansiosa?!?!


Por fim, deixo uma dica: para todos aqueles que já pensaram na possibilidade de ler o livro, mas ficam com medo por causa do seu tamanho (1104 páginas com letras pequenininhas realmente assustam qualquer leitor), não protelem mais. Acreditem: as páginas voam em nossas mãos e essa obra vale cada vírgula!


Don't you want a baloon?



Um comentário: