sábado, 10 de janeiro de 2015

Resenha #24 — A Arma Escarlate (Renata Ventura)

A Arma Escarlate
Autora: Renata Ventura
Literatura Brasileira
Editora: Novo Século
Páginas: 488

"O ano é 1997. Em meio a um intenso tiroteio, durante uma das épocas mais sangrentas da favela Santa Marta, no Rio de Janeiro, um menino de 13 anos descobre que é bruxo.

Jurado de morte pelos chefes do tráfico, Hugo foge com apenas um objetivo em mente: aprender magia o suficiente para voltar e enfrentar o bandido que ameaça sua família. Neste processo de aprendizado, no entanto, ele pode acabar por descobrir o quanto de bandido há dentro dele mesmo."




No início do livro, a nota da autora conta como surgiu a inspiração para escrever A Arma Escarlate. Diz que, em uma entrevista da J. K. Rowling (autora de Harry Potter), um fã perguntou se ela um dia iria escrever um livro sobre uma escola de bruxaria nos EUA. Ela respondeu que não, mas que ele podia se sentir à vontade para escrever o dele. Dessa forma, Renata Ventura aceitou o desafio e escreveu sobre uma escola de bruxaria no Brasil.

Sendo declaradamente uma fanfiction da obra de Rowling, o livro não me chamou muito a atenção quando vi algo sobre ele pela primeira vez. Até o momento eu só li os três primeiros de Harry Potter, e como já tenho uma lista imensa de livros que quero ler (lista que aumenta todos os dias), busco fugir de obras muito parecidas, dando prioridade a leituras diversas. Acabei comprando o livro porque estava valendo muito a pena na Bienal em SP, sendo de uma das únicas editoras que aceitava o Vale Cultura. E como eu já tinha visto muita gente elogiando no facebook, interagindo com a autora e tudo o mais, sabia que as chances de que eu me arrependesse da compra eram pequenas. E mesmo assim, desde a compra, demorei cerca de 5 meses para ter vontade de ler, ainda fugindo do "mais do mesmo", esperando realmente algo muito parecido com Harry Potter.

O começo, de fato, é bem semelhante. A forma como o Hugo (que na verdade chama-se Idá, mas tem vergonha do nome e troca ao ir para a escola de bruxaria) recebe a carta por um pássaro, tem a versão do Beco Diagonal que chama-se SAARA, o dinheiro próprio do mundo bruxo, algumas personagens dá para identificar com personagens de Harry Potter, os não bruxos são chamados de azêmolas etc. Vários detalhes como esses dão, de fato, a impressão de que estamos lendo um Harry Potter com os nomes diferentes. Mas em determinado ponto da leitura, cheguei até a esquecer dessa relação. É um livro brasileiro, e muito brasileiro! A cultura brasileira aparece de diversas formas, com religiões, lendas folclóricas, costumes cotidianos, alimentação, gírias, sotaques... Inclusive aparecem críticas sobre os bruxos brasileiros da escola, chamada Nossa Senhora do Korkovado, que ficam querendo agir como os europeus, inferiorizando o lugar onde vive e a própria cultura.

Bom, mas vamos às personagens e à história.

Hugo, menino do morro, se mete em encrenca com os caras do tráfico pouco antes de descobrir que é bruxo. Caiçara, um dos braços direitos do chefe Vip, odeia o garoto e o sentimento é reciproco. Não da pra saber ao certo onde e como esse ódio todo começou, mas ele existe. Pouco antes de ir para a escola de bruxaria, Hugo é encurralado pelos policiais e acaba dedurando Caiçara, o que transforma o ódio gratuito em ódio mortal. Dessa forma, o principal objetivo de Hugo ao ir para essa escola é aprender magia o suficiente para poder voltar pra casa e se vingar do cara. Isso, a princípio.

Na escola, Hugo acaba por ser "adotado" pelo grupo de rebeldes populares chamados Pixies. São rebeldes porque estão sempre agitando a escola e lutando contra as imposições esnobes do Conselho, além de buscarem sempre inserir a chamada cultura azêmola no mundo dos bruxos, valorizando ainda mais nosso Brasil. São 4 integrantes na faixa de 15 e 16 anos:

Viny é natural da cidade de Santos e tem pose de líder. É o mais sociável do grupo, causando suspiros e admiração por onde passa, e o que mais apronta. O que mais fala gírias também.

Índio (não gosta que saibam, mas chama-se Virgílio) é o cabeça. O mais sério e desconfiado, único dos Pixies que não aceita muito a chegada de Hugo ao grupo porque não confia no garoto. É mineiro, mas tenta disfarçar o sotaque ao máximo.

Caimana é a típica carioca. Surfista e doce, mas é melhor não provocar porque nesse caso a explosão é feia! Tem um relacionamento aberto com Viny.

Ítalo, mais conhecido como Capí (de capixaba, referente ao lugar onde ele nasceu) é filho do zelador da escola (que, assim como em Harry Potter é um fiasco - filho de bruxos que não nasceu bruxo). Cresceu ali dentro, já que ele e o pai moram no chamado Pé de Cachimbo perto da floresta do lugar. É o bom menino do grupo, tão bom que chega a enfurecer os outros o tempo todo por se deixar explorar por todos na escola, de professores pedindo favores, já que seu pai não tem poderes para resolver muitos deles, aos alunos rivais que o atacam sempre que têm chance. É, de longe, meu Pixie favorito. Apesar de parecer bobo, é o mais inteligente e com os melhores conselhos, além de ter o coração mais lindo que já vi em personagem literário. São tantas coisas para falar dele que, se eu me empolgar, faço uma resenha apenas sobre Capí. Mas vou parar por aqui e deixar que todas essas descobertas maravilhosas sejam feitas pela leitura do livro para aqueles que se interessarem.

No decorrer da história, Hugo acaba esbarrando com Caiçara nas férias de julho, e esse, ao invés de matar o garoto de uma vez, descobre o segredo dele e resolve explorar de uma maneira bem perigosa. E é a partir daí que as coisas realmente ficam feias.

Num livro brasileiro, com a nossa cultura (e nossos problemas como o tráfico e a desigualdade social gritante) tão em evidência, senti a história muito mais real do que muitos livros conseguem, mesmo com toda a fantasia bruxa no meio. O vilão principal da história, por exemplo, não é uma pessoa (ou "bruxo malvado", como no caso do Voldemort). Hugo não é um protagonista amável. Ele é terrível! Ficamos naquele empasse entre odiar as atitudes dele e compreender pelo tipo de vida que ele tem e a situação em que ele se encontra quando começa a fazer coisas erradas. Como diz a sinopse, ele precisa lutar contra o bandido que existe dentro dele. E não pensem que isso é um esteriótipo preconceituoso por ele ser um "menino da favela", porque Gislene, vizinha dele que também vai para a escola de bruxaria, é um exemplo de ética e caráter, assim como várias pessoas residentes do Santa Marta chamadas de "trabalhadores de bem" são citadas durante a história. Mas Hugo... Hugo é um caso complicado!

O livro tem continuação: A Comissão Chapeleira. Não vou iniciar a leitura tão cedo para poder desfrutar um pouco mais das sensações que o primeiro livro me causou e para dar aquela revesada marota nos gêneros lidos, mas a ansiedade está grande.

Por fim, fica aqui minha dica para todos aqueles que também tinham certo receio da leitura por não gostarem muito desse estilo fanfiction: mesmo com a base de inspiração, esse livro tem muita originalidade. Arrisquem que vale a pena!

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