terça-feira, 17 de março de 2015

Contos #14 — Vinicius

Cada pessoa tem suas próprias características, características essas que fazem parte daquele pacote que torna a pessoa única. 

Com as crianças não é diferente. Às vezes até penso que elas são ainda mais únicas por não tentarem se adequar ao grupo como acaba acontecendo conosco da adolescência em diante em algumas situações. Crianças dão um show de espontaneidade!

No último semestre do curso de Pedagogia, fiz estágio na educação infantil. Acompanhei cerca de 20 alunos na faixa de 5 e 6 anos de idade, cada um deles com suas peculiaridades. Porém, em todo grupo, é normal que ocorram os destaques. Esse destaque pode ser objetivo, quando qualquer observador percebe a mesma pessoa porque ela realmente se faz destacar, ou pode ser subjetivo, quando cada observador acaba focando em uma pessoa, de acordo com características marcantes da mesma. 

Vinicius é um destaque objetivo.
É daqueles que nos faz ouvir com frequência: "Só podia ser o Vinicius!".
Mas não de uma forma negativa, como "o aluno que vive causando problema". 
Ele se destaca por ser ativo e participativo, querendo estar em tudo e opinando sobre tudo a todo momento. Ele se destaca por ser inteligente ao ponto de nos colocar em saias justas com seus questionamentos em vários momentos. Ele se destaca por ser carismático e sociável, daqueles que chega e faz questão de dar oi para todo mundo. Daqueles que não se importa de emprestar seu brinquedo para os amiguinhos na sexta-feira mesmo correndo o risco de passar um tempão esperando pela devolução, e nem se importa de ter cinco meninas colorindo borrocadamente de rosa o super herói da contracapa de seu caderno. 

Posso resumir dizendo que, se aquela sala de aula fosse uma série de TV bem clichê, Vinicius seria o protagonista que causa suspiros nas meninas e desperta admiração nos meninos. Incontáveis foram suas participações interessantes nessa minha experiência de três semanas, mas algumas merecem um registro por escrito, e eis o que faço nas linhas que seguem.

Logo na primeira semana, segundo ou terceiro dia da minha presença em sala de aula, a professora estava passando uma atividade onde os alunos deveriam circular determinadas palavras na letra de uma música. No momento da explicação, aconteceu o seguinte:

Professora: — [...] e vocês vão circular essas palavras.

Vinicius, se referindo à palavra circulada na lousa como exemplo: — Mas você fez um amendoim, tia, e não um círculo. Agora só falta desenhar o elefante...

Muito observador! E criativo.

Posteriormente, quando eu já estava bem envolvida e à vontade com a turma, eu e ele desenvolvemos uma conversa sobre o Coelhinho da Páscoa:

Vini: — Coelho da Páscoa não existe! É um homem vestido de coelho que faz o chocolate, eu vi o zíper.

Eu: — Mas o Papai Noel existe?

Vini: — Papai Noel existe!

Eu: — Então...

Vini: — É diferente! O Papai Noel faz presentes com a ajuda dos elfos.

Eu: — E se esse homem ajuda os coelhinhos que fazem chocolate, igual os elfos?

Vini: — Mas coelho não faz chocolate! Uma vez um coelho subiu em mim assim, acho que ele deve é ter fazido cocô...

Pode até ser parecido, mas acho que não seria um bom substituto, né?!

Teve um dia, provando que até o mais bem humorado dos garotos tem seus momentos ruins, que ele estava um tanto sensível/agressivo. Primeiro se declarou magoado porque algumas meninas estavam caçoando dele (sim, ele disse que estava magoado porque as meninas estavam caçoando dele) por elas estarem tentando desenhá-lo em um atividade.

Quando a professora estranhou sua reclamação e sua expressão emburrada, perguntou o que estava acontecendo. Ele desandou a falar sobre não ter com quem brincar em casa porque os pais trabalham muito e sua irmã é muito pequena, sobre sempre levar a culpa por tudo de errado e de levar bronca à toa. Tentei conversar com ele, ao mesmo tempo permitindo um desabafo e tentando distraí-lo para que seu humor melhorasse. E essa foi a conclusão dessa conversa:

Vini: — Vocês, adultos, não entendem o mundo criança.

Eu: — Claro que entendemos! Eu também já fui criança, viu?!

Vini: — Mas agora as mães batem na gente.

Eu: — Tomei bastante chinelada quando era criança também.

Vini: — Tá, mas hoje em dia as mães estão muito mais fortes...

Quase um mini advogado, firme na argumentação.

Em outra ocasião, quando estávamos fazendo uma atividade com jornais, ele declarou que queria ser jornalista quando crescesse. Eu disse que, para isso, ele precisaria gostar de escrever e escrever bastante, pois jornalista precisa escrever notícias e artigos.

Vini: — Pode deixar! Quando eu crescer vou ser escrevedor de notícias.

Eu: — Não é escrevedor, é escritor!

Vini: — Isso! Vou ser escritor de notícias. E fazedor de filmes também!

Vale registrar que ele também chegou a mencionar que iria abrir uma escola e contratar a professora e eu para trabalhar lá. Isso sem contar que a família dele possui um pequeno negócio. Garotinho mil e uma utilidades.

Obs: Ok, eu sei que a palavra escrevedor existe, mas o jornalista escreve profissionalmente, o que faz dele um escritor, e não um escrevedor, que é quem escreve por puro hobby (eu sou uma escrevedora, prazer).

E fechando com chave de ouro, em meu último dia de estágio eu precisava coletar um reconto de alguns alunos de alguma história que eu havia contado naquele período. A história escolhida foi Rapunzel, e ele, claro, um dos alunos escolhidos para a atividade.

Na primeira vez que contei a história, na minha primeira semana lá, no momento em que mencionei o príncipe passeando pela floresta quando avistou a torre, Vinicius me interrompeu dizendo que o príncipe não estava passeando, e sim "fugindo daqueles caras lá". A referência veio do filme Enrolados da Disney, onde o príncipe da Rapunzel não é um príncipe, e sim um ladrão que resolveu passar a perna nos seus comparsas e fugir com o material coletado no último roubo, encontrando a torre nessa fuga. Na hora, expliquei que aquela era outra versão da história e continuei a minha.

No dia do reconto, quando ele viu que eu estava com o caderno e a caneta na mão, expliquei que iria anotar aquilo que ele me contaria para mostrar para minha professora da faculdade. Ele aceitou e recontou a história com bastante detalhes, introduzindo o príncipe como alguém que seguiu a bruxa na floresta e encontrou a torre. Pensei: "Ele deve ter compreendido sobre as versões diferentes e realmente decidiu recontar a minha". Porém, quando fechei o caderno e dei a atividade por terminada, ele sai andando e dizendo: "E não esquece de contar pra sua professora que o príncipe tava fugindo daqueles homens lá, hein!!!".

Vou sentir saudades da professora e daquelas crianças, essa experiência foi incrível.
E Vinicius, então, não será esquecido nunquinha!

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