sexta-feira, 27 de março de 2015

Contos #15 — O Pacote (parte I)


Quando Renata abriu a porta do apartamento pela primeira vez naquela tarde, com o objetivo de levar o lixo para a portinha de despejo, deu de cara com um pacote sobre seu carpete do corredor. Não lembrava de ter feito nenhuma encomenda, além de estranhar o fato de não terem pedido sua assinatura na entrega e simplesmente largarem aquele pacote ali. Ao pegá-lo, notou que estava endereçado para seu apartamento, de fato, mas o nome não estava correto. Deveria ser entregue à Sofia Honório. Mas quem era Sofia Honório?

Pegou o pacote e deixou em cima do balcão da cozinha enquanto terminava seu almoço tardio. Trabalhando como garçonete noturna em uma lanchonete-bar de quinta categoria, ela nunca conseguia chegar em casa antes das quatro da manhã, o que fazia com que seu horário de sono fosse um tanto invertido. Ela costumava dormir às cinco da manhã e acordar por volta das duas da tarde, e isso causava certo desconforto entre ela e alguns moradores do prédio, especialmente senhoras desocupadas que dedicavam todo o tempo livre ao julgamento da vida alheia. O lugar já não era dos melhores e contava, de fato, com algumas prostitutas e drogados como inquilinos que viviam causando confusão. Mas o que poderia ser feito? Era o único lugar que seu dinheiro escasso podia pagar.

Depois de almoçar e tomar um banho, Renata foi até a portaria perguntar ao Chico, o zelador, quem era Sofia Honório.

— Olha, senhorita… Se eu não estou enganado, é aquela moleca moreninha do terceiro andar. Neta da dona Eulália.

— Aquela bruxa?

Chico deu uma engasgada, tentando segurar o riso. — Ela mesma!

— Xiii… Eu ia te pedir para entregar o pacote lá por mim, mas deixa que eu faço.

— A senhorita sabe o que a dona brux… digo, a dona Eulália acha da senhorita, não é?

— E… ? Ela e mais metade do prédio, né, Chico?! Isso se não for ele inteiro… É só você que realmente sabe da minha vida aqui e não faço questão de que mais ninguém saiba. Pagar minhas contas ninguém quer...

— Entendo. Não quer que eu entregue o pacote mesmo?

— Não, deixa comigo. Obrigada.

Ao tocar a campanhia do apartamento de Sofia, Renata pôde ouvir o que julgou ser a própria menina avisando que iria atender, seguida por algum resmungo não identificável ao fundo.

Quando abriu a porta e se deparou com Renata e o pacote em sua mão, Sofia arregalou os olhos, travou a respiração e fechou a porta na cara da moça antes mesmo que essa pudesse dizer alguma coisa. Antes de tornar a tocar a campanhia, Renata pôde ouvir, agora claramente, a voz de uma mulher perguntando quem era.

— Era engano, vó.

— Como assim “engano”, menina? Engano acontece no telefone, não na nossa porta! E nem ouvi conversa, onde já se viu fechar a porta na cara dos outros?

E a porta foi novamente aberta, dessa vez por dona Eulália, com um avental surrado e engordurado sobre a barriga saliente.

— Ah. Entendi porque a menina fechou a porta na cara da... visita — disse com desdém olhando Renata de cima a baixo. Já estava tornando a fechar a porta, mas a moça segurou, pedindo licença e mencionando a encomenda.

— A gente não quer nada que venha de você, minha jovem.

— Não, a senhora não está entendendo... — disse Renata, forçando uma educação que deixava um cinismo evidente. — Entregaram uma encomenda da sua neta no meu apartamento. Não é nada meu, até porque eu tenho coisas mais importantes para gastar meu dinheiro do que com presentes para vizinho sem educação.

O rosto da velha ficou vermelho de raiva, e num impulso, ela arrancou o pacote da mão de Renata e começou a abrir. A moça, que se pôs a voltar para seu andar no instante em que a mulher lhe tirou o pacote das mãos, já estava prestes a descer as escadas quando ouviu dona Eulália gritar com a menina antes mesmo de fechar a porta.

— POSSO SABER DE ONDE VOCÊ ANDA TIRANDO DINHEIRO PRA ESSE TIPO DE BESTEIRA, SUA CRETININHA??? ANDA ROUBANDO DA MINHA BOLSA, É?!

Utilizando esses termos e pela forma como a mulher parecia furiosa, Renata estagnou, sem conseguir imaginar o que poderia ter dentro do pacote para que a mulher agisse daquela forma. Sentou-se nos primeiros degraus para tentar ouvir o resto da conversa, já sentindo-se culpada por ter colocado a menina naquela situação.

A mulher continuou gritando algumas coisas acusatórias contra a neta, como o fato de ela não se importar com coisas realmente importantes como procurar um trabalho para ajudar com as contas. Mas a menina não parecia ter mais do que dez anos!

Depois de mais alguns gritos e ofensas, Renata ouviu um baque do lado oposto do corredor, seguido por outro baque ainda maior da porta do apartamento batendo. Espiou para ver se nenhuma das duas estava lá fora e correu até o local do primeiro baque, descobrindo que a mulher havia arremessado o pacote da menina. Abaixou-se para pegar e descobriu o que causara todo aquele alvoroço: um livro de poesias.


Parte II

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