sábado, 16 de maio de 2015

Contos #16 — O Pacote (parte II)



Renata pegou aquele livro, que ainda estava meio enfiado no pacote arremessado por dona Eulália, e voltou para seu apartamento. Lá ela conseguiria ler algumas poesias sem correr o risco de ser pega pela bruxa e ser acusada de bisbilhotar onde não era chamada — embora a velha tenha claramente o jogado fora, dando permissão implícita para que qualquer pessoa tomasse posse do mesmo e fizesse o que bem entendesse com ele.

Ela trancou a porta, chutou os chinelos para o lado e foi sentar-se em uma de suas poltronas surradas para analisar o que tinha em mãos. 

Primeiro olhou novamente para o pacote, que estava no nome da menina, mas endereçado ao seu apartamento. Aquilo poderia ser apenas um engano, mas a expressão de Sofia quando deu de cara com ela na porta parecia dizer o contrário. Ela sabia o que Renata tinha em mãos. Teria ela feito essa encomenda e pedido para entregar na vizinha de propósito porque sabia do chilique que a avó daria? Essa possibilidade fez Renata se sentir péssima. Culpou-se por qualquer castigo que a velha poderia dar à menina, além de todos os xingamentos que já ouvira. Seu único consolo era ter salvo o livro depois do arremesso e poder contar com a possibilidade de entregá-lo em segredo à Sofia quando surgisse uma boa oportunidade. 

Renata já nem se lembrava mais da última vez que tivera contato com um livro de poesias na vida, uma vez que sua escola não tinha uma biblioteca muito vasta e ela nunca tivera condições sequer de comprar um tênis decente, quanto mais de ficar gastando com livros. Recordava remotamente de uma tia que gostava de poesias e lera algumas para ela quando ela era bem pequena, até que essa tia se casou, foi morar em outra cidade com o marido e ela nunca mais viu os tais livros.

Mas esse livro era diferente. Não possuía um selo de editora, nem uma capa feita com arte gráfica. Não possuía ficha catalográfica, nem biografia do autor. A capa era feita de papel pardo, com o título Versos de Meu Coração escrito à mão com letra caprichosamente rebuscada em tinta azul brilhante. Embaixo do título, escritas da mesma forma, encontravam-se as iniciais S. H. Algumas folhas contavam com beiradas escurecidas, típicas de impressoras com cartuchos necessitando de manutenção, e para unir a capa e todas essas folhas, cinco furos por onde passavam pedaços de barbante tingidos de um azul brilhante, iguais à tinta das escritas na capa. Era um livro artesanal. Parecia tão frágil que Renata ficou agradecida por dona Eulália ter deixado ele dentro do pacote na hora do arremesso. Do contrário, seria difícil que ele estivesse inteiro agora.

Abriu-o, agora para ler cada página atentamente. A primeira página estava em branco, como uma suposta folha de rosto. Na segunda página, encontrou a primeira poesia:

Coração pequenininho
Coração de criança
Anda apertadinho
Com saudades da família e de nossa aliança

Saudades do colo da mamãe
Saudades do carinho do papai
Saudades de se sentir com esperança

Coração pequenininho
Coração de criança
Anda apertadinho
Cheio de insegurança

O colo não existe mais
Do carinho não há nem sinal
Tudo que restou desse tempo bom
Agora está guardado na lembrança

Eram versos simples, mas foram suficientes para fazer com o coração de Renata também se sentisse ligeiramente apertado. Virou a página e encontrou a segunda e a terceira poesia:

Hoje saí de casa mais cedo e fiz um amigo
Ele me acompanhou pelo caminho da escola
Na verdade não conversou muito comigo
Mas suas várias lambidas me contaram que já me adora

Um cachorrinho lindo de três cores
Peludo, bem magro e meio manco
Me fez lembrar que a vida, mesmo com suas dores
Ainda pode nos trazer... surpresas!!!

(Pensou que eu fosse rimar, não é? Surpresa!)

Essa segunda fez Renata sorrir e seguir em frente, pela terceira, quarta, quinta... Só parou de ler quando se deu conta de que ainda não havia preparado o jantar e logo deveria ir para o trabalho. Conseguiu chegar na metade do livro, esse que ela julgou possuir uma cem páginas mais ou menos. As poesias ali abordavam diversos sentimentos: essa saudade doída da família; admiração de pequenas coisas do dia a dia como arco-íris, cachorros na rua, pássaros cantando, um sorvete de chocolate, um abraço da professora; primeiras paixões; medos e desilusões; aspirações futuras; sonhos secretos... Não demorou muito para que ela ligasse as coisas e percebesse que as iniciais na capa do livro pertenciam justamente a sua destinatária: Sofia Honório. Aquelas poesias eram de autoria da menina. Aquela menina que parecia ser tão invisível ao resto do mundo e estava sendo cada vez mais apagada por aquela avó maluca possuía um coração sofrido e um talento lindo, além de esperanças que resistiam fortemente àquela situação triste na qual se encontrava: perdera os pais em um acidente e se vira obrigada a morar com a única avó viva, mulher malvada que não era nem de longe parecida com as avós fofas e acolhedoras que ela conhecera pelas histórias infantis.

Renata decidiu que precisava fazer alguma coisa pela menina. Ela não sabia o quê, não sabia como, e naquele exato momento, não sabia nem se conseguiria chegar a tempo no trabalho sem tomar mais uma advertência do gerente. Mas ela não podia simplesmente descobrir tudo aquilo e se tornar cúmplice da morte dos sonhos daquela criança que morava sobre sua cabeça.

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