terça-feira, 26 de maio de 2015

Resenha #26 — O Pássaro (Samanta Holtz)

O Pássaro
Autora: Samanta Holtz
Literatura Brasileira
Editora: Novo Século
Páginas: 366

"Caroline Mondevieu é filha de um poderoso barão e tem tudo o que uma dama da época poderia querer: status, riqueza e um ótimo partido para casar. Seus sonhos, no entanto, vão muito além de vestidos caros ou um bom marido; ela quer ser dona do próprio destino.

Tudo parece perdido quando ela encontra Bernardo, um charmoso e irritante domador de cavalos. Eles não conseguem se entender até perceberem que, para alcançar o sonho em comum da liberdade, deverão passar por cima das diferenças e se unirem em um arriscado plano que promete transformar suas vidas para sempre.

Grandes emoções os aguardam nessa jornada: perseguição, mistérios, ciganos e o despertar de um sentimento que insiste em se manter escondido. Mas o que parece tão simples envolverá mais magia e coincidências que eles podem imaginar, além da descoberta de segredos, até então, muito bem guardados."


Minha primeira leitura de Samanta Holtz foi Quero Ser Beth Levitt, livro que me deixou totalmente encantada. Agora, com O Pássaro, não senti apenas encanto, como também centenas de outras emoções possíveis e cabíveis num coração humano. E vou explicar o porquê:

A história se passa no século XIII e sabemos bem o quanto as mulheres sempre foram oprimidas, tratadas mais como paredeiras e objetos de decoração do que como seres humanos. Uma mulher com sucesso na vida era aquela que conseguia um bom casamento - para ter filhos e ser exibida pelo marido quando rica, ou para ter filhos e virar serviçal do marido quando pobre. Mas Caroline não concordava com isso... Hoje em dia, com o movimento feminista cada vez mais forte, é comum que histórias com protagonistas rebeldes como a Caroline faça muito mais sucesso do que as clássicas com donzelas em perigo, o que faz com que o tipo de personagem tenha se tornado comum. Mesmo assim, esse livro realmente me surpreendeu!

O pai da garota, Enézio, é um barão cruel, daqueles que se importa mais com o que a sociedade pensa dele e de sua família do que com qualquer outra coisa. Ele e Caroline vivem entrando em conflito por conta disso, uma vez que a garota se rebela com facilidade e vive causando desconfortos, desestabilizando a imagem da família perfeita. Na infância ela chegou a tomar uma surra do pai quando, ao conversar com o filho do domador de cavalos, ela descobre que não são todas as pessoas do mundo que vivem em um castelo como ela, cheia de conforto. Após essa conversa, ela questiona o barão sobre o fato dele não fazer "nada" e ter muito dinheiro, enquanto pessoas que trabalham tanto como o homem dos cavalos, vivem em uma casa miserável como a que ele e os filhos possuem. Talvez esse questionamento não tivesse sido motivo suficiente para uma surra... se não tivesse sido feito na frente de visitas.

É dessa forma que somos introduzidos ao mundo e ao gênio de Caroline. Depois vamos acumulando rebeldias, como ela não se conformar com a submissão da mãe, soltar comentários ácidos a todo momento e até tentar fugir de seus casamentos. 

Em um de seus momentos de reflexão pelo território do pai, ela reencontra aquele garoto, filho do domador de cavalos, que já se tornara homem, e o reconhece. Ele, Bernardo, também é rebelde e inconformado com a vida que leva. O rapaz faz pouco caso da rebeldia da garota, uma vez que ela "não tem do que se queixar", além de julgá-la arrogante e com ego de superioridade igual ao barão, e ambos trocam grandes farpas ao longo dos capítulos. Isso até que descobrem um objetivo em comum e decidem, por total persuasão de Caroline, se unir para fugir daquele lugar e buscar a liberdade que tanto almejam: ela, para deixar de ter alguém decidindo seu destino, e ele, para deixar de trabalhar para o barão e seguir seu sonho de ser campeão de corridas de cavalos.

Nessa jornada, a encontramos na posição de donzela em perigo por muitas vezes, é verdade, mas isso é totalmente justificável, uma vez que ela, mesmo possuindo uma personalidade revolucionária, é apenas uma menina que cresceu em um castelo, cercada de criados e conforto. Bernardo, claro, entra na história como o herói e ficamos naquela montanha-russa de momentos de discussão e de gentil aproximação entre eles. Já sabemos o que vai acontecer, não é? Pois é... Mas não é simples assim, e a fúria do barão pela fuga de Caroline e por sua audácia ao se juntar com o domador de cavalos é o menor dos problemas dessa história.

Não me permito mais descrever acontecimentos, uma vez que o livro está repleto de mistérios a serem desvendados de maneira que só mesmo a leitura faria jus às suas emoções. E sobre tais mistérios, em alguns momentos me peguei prevendo o que viria a seguir com o seguinte pensamento: "Não, isso não pode acontecer... A Samanta é fofa demais para uma crueldade dessas...". Mas não, a Samanta não é fofa demais. A Samanta possui a medida certa de fofura para nos encantar e de crueldade para nos abalar profundamente, fazendo de suas histórias inesquecíveis.

Após terminar essa leitura, fui checar resenhas no Skoob e vi algumas pessoas descontentes com o final do livro. O final é realmente surpreendente e de causar certa revolta, porém, depois de refletir a respeito e pensar nas possibilidades, acredito que não existiria um final melhor e mais emocionante para essa história. As coisas chegam a um ponto onde nada mais poderia ser feito sem que se seguisse um inferno eterno na vida daquelas pessoas (pessoas, sim, pois chamá-los de simples personagens parece desvalorizar toda a emoção que me causaram).

É difícil que eu me pegue em estado de espírito propício para ler um romance, tampouco é difícil que os romances que leio consigam me emocionar de verdade. Talvez eu leia numa proporção de 1 romance para cada 20 livros de gêneros menos delicados, como fantasia, suspense policial e os clássicos horrores de King. Mas O Pássaro conseguiu me atingir profundamente. Comecei a lê-lo como uma forma de descansar dessas minhas leituras mais pesadas, esperando um romance leve e corriqueiro, e acabei tomando uma surra de emoções. E isso tudo, além do conteúdo delicioso, podendo contar também com a escrita impecável da Samanta, onde as palavras se encaixam perfeitamente, sem tirar nem pôr.

E cá continuo suspirando, inspirada pela determinação e coragem de Caroline: uma menina que começou como uma criança revoltada e pronta para desafiar o pai a qualquer custo, mimada à sua maneira, e que pude ver evoluir e amadurecer a um ponto onde seria capaz de qualquer sacrifício por amor.

Por fim, declaro que, em meio a tantos acontecimentos e reviravoltas, talvez minha maior lamentação seja por Filip. Mas para saber quem ele é qual a razão desse meu sentimento, só conhecendo a história toda...

Um comentário:

  1. Querida Marcela,

    Eu ainda não havia visto sua resenha, acabei encontrando-a hoje através do Skoob :) E que felicidade encontrá-la, pois é bom demais ler palavras tão lindas sobre mim e sobre meu trabalho!

    Então, vou deixar também aqui minhas palavras:

    Que resenha linda, linda, linda! Amei ler seu ponto de vista sobre O Pássaro, escrito de forma tão bonita - e que, em alguns momentos, me fez rir, como na parte: "Mas não, a Samanta não é fofa demais" :) rs...

    Fiquei feliz em saber que O Pássaro a surpreendeu tão positivamente, despertando uma cascata de emoções quando o que você esperava era uma leitura leve! Também adorei seu ponto de vista sobre o final do livro e, embora respeite e compreenda a opinião dos que pensam diferente, fico contente em perceber que a maioria se emociona e admira com a forma como tudo foi encerrado! Nossa Caroline era digna de um final nobre.

    Obrigada pelos elogios à minha escrita, pelo amor à minha história e aos meus personagens - ou melhor: nossos! Minha maior alegria, como escritora, é poder compartilhar meu universo com vocês. Obrigada por fazer parte dele!

    Com amor,
    Sam

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