sexta-feira, 5 de junho de 2015

Contos #17 — Be My Guest (suspense/terror)


Conheça Marina Bornhausen: uma jovem milionária, elegante e de uma intelectualidade ímpar. Iniciou um negócio próprio com a mesada que recebia dos pais antes mesmo de chegar à maioridade e hoje possui seu próprio império. 

Solteira e bem resolvida, encontrou na filantropia um novo prazer. Em sua bela casa, que possui um amplo salão de festas, realiza eventos sociais dos mais variados: leilões de jóias e obras de arte para a elite, onde parte do dinheiro arrecadado é revertido para instituições necessitadas; baladas com o intuito de receber doações diversas; banquetes oferecidos à desabrigados; apresentações e oficinas culturais oferecidos a crianças órfãs; palestras conscientizadoras para a população em geral; e qualquer outro evento que lhe pareça propício a render resultados positivos na sociedade. Cada qual em seu momento, ela não fecha as portas para ninguém; se você comparecer ao evento certo, será muito bem recebido por Marina e seus três fiéis escudeiros.

O evento da semana se tratava de um jantar um pouco mais íntimo, reservado apenas a seus colegas da época da faculdade, tendo como foco arrecadação de alimentos, brinquedos e voluntários para a realização da quermesse junina na igreja mais carente da cidade. Fora Marina e seus três escudeiros, a mesa contava com 16 convidados.

— Marina, preciso te confessar uma coisa... — se manifestou Ruth logo após o brinde. — Eu aceitei seu convite, trouxe quilos de milho para pipoca e pelo menos uns quinze brinquedos de ótimas marcas... Mas não estou com a mínima coragem de servir cachorro-quente para pirralhos e velhos durante uma semana. Criança gritando, correndo, se sujando de tudo quanto é tipo de comida e chegando perto de mim, velho querendo puxar papo, aquelas músicas insuportáveis... Não, pra mim não dá!

— Mas você não precisa ir a semana toda — respondeu Marina de maneira suave, esboçando um sorriso compreensivo. — Os voluntários podem fazer rodízio... Um dia que você vá já ajuda muito!

— Que seja! Não estou disposta nem a meia hora! Odeio ser obrigada a ter contato com gente desse tipo. Frequentadores de quermesse... Deus me livre! Para ser sincera, eu ainda não entendi por que você está pedindo nossa ajuda para trabalhar nisso com tanta gente naquela vizinhança...

Antes que Marina pudesse responder, Nathan, que fora seu namorado há alguns anos, se manifestou.

— A ideia da Marina, Ruth, é justamente deixar que essas pessoas da vizinhança apenas se divirtam. Elas já trabalham em suas casas ou para mantê-las durante todo o tempo. É justo que recebam uma folga...

— Então que contrate pessoas de outra vizinhança pra isso. Dinheiro suficiente a Marina tem, isso é óbvio. Ela tem dinheiro até para contratar um buffet de gala que sirva paçoca gourmet!

— Ruth — quem falava agora era Alice, a mais sensata do grupo desde sempre —, a filantropia não consiste apenas em doar o material. Dinheiro a Má realmente tem, acredito que a maioria de nós aqui poderia bancar uma quermesse de igreja como essa sem ajuda, na verdade. Mas falta a parte humana, entende? Estar lá, participar, se envolver de verdade. Sorrir para as crianças e os velhos dos quais você parece ter tanta repulsa. Pessoas contratadas não teriam um envolvimento real com o evento.

Ruth revirou os olhos e suspirou enquanto pedia um pouco mais de champanhe.

— Mas se você não quiser ir — continuou Marina depois de agradecer Alice pelo breve esclarecimento —, ninguém vai te obrigar... Muito pelo contrário! Agradeço de coração suas doações, mas se for para se comportar com esse desdém e essa má vontade, eu realmente prefiro que você nem dê as caras por lá.

— Não se preocupe que ficarei bem longe, com o maior prazer! 

Contrariando o senso comum que esperaria um mal estar na mesa depois de tal diálogo, o jantar seguiu suave e divertido, com os outros convidados animados com a proposta de Marina e já iniciando-se uma divisão de tarefas. E em meio a tanta empolgação e combinados, ninguém percebeu os olhares trocados entre Marina e seus escudeiros, que estavam sempre por perto em seus eventos e atentos a suas ordens silenciosas.

Demorou três dias para que o sumiço de Ruth fosse noticiado pelos jornais. Como filha de um importante advogado da cidade, seu desaparecimento recebeu mais atenção do que grande parte dos desaparecimentos resultantes dos eventos oferecidos por Marina. E, como em todos os casos, o nome da jovem jamais seria posto em suspeita. Haviam testemunhas. Sempre haviam testemunhas de que a pessoa em questão saíra da casa de Marina em segurança. Os escudeiros sabiam bem como agir. Sempre foi assim: com Ruth, moça esnobe que se achava boa demais para desperdiçar seu tempo dando atenção para crianças e velhos; com Tavares, o alcoólatra e misógino criador de cavalos que tratava melhor de suas éguas do que de sua esposa; com Fabiano, o garoto irritante que insistia em empurrar as outras crianças na dança da cadeira, vencendo todas as rodadas de maneira desonesta e cruel; com Viviane, a terapeuta invejosa que após um porre confessou se esforçar para criar crises conjugais na vida de todas as suas pacientes que possuíam belos maridos; com Otávio, o funcionário público que cometeu o deslize de contar uma piada racista durante o banquete.

A filantropia de Marina não consistia apenas em alimentar os famintos, tratar os doentes e abraçar os solitários. Ela acreditava que, para melhorar o mundo de fato, também era preciso se livrar da escória que insistia na inconveniência de habitá-lo. Portanto, se um dia você for convidado para um dos eventos na casa dessa jovem milionária, é melhor cuidar para que o lado podre de sua personalidade fique bem escondido. Porque nós sabemos que ele está aí. Quem não o possui, afinal de contas?!



Marcela Burghi Zadra, 2015

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