quarta-feira, 9 de setembro de 2015

Resenha #28 — Jane Eyre (Charlotte Brontë)

Jane Eyre
Título original: Jane Eyre
Autora: Charlotte Brontë
Editora: BestBolso
Páginas: 527

Jane Eyre, orfã de pai e mãe, vive com parentes que a desprezam até ser enviada para a instituição de caridade Lowood. Apesar das inúmeras privações que enfrenta na escola, a menina leva uma vida quase feliz e se torna forte e independente. Aos 18 anos, decide partir para Thornfield e trabalhar como preceptora de Adèle, pupila do irônico e arrogante Edward Rochester. Publicado originalmente em 1847, este primeiro romance de Charlotte Brontë inspirou adaptações para o cinema e a televisão. Jane Eyre narra, além de uma comovente história de amor, a saga de uma jovem em busca de uma vida mais rica do que a sociedade inglesa do século XIX tradicionalmente permitia às mulheres.


Quanto mais clássicos eu leio, mais percebo que a palavra spoiler não faz muito sentido quando vamos comentá-los. Além da suposição de que, sendo um clássico, a maioria das pessoas que possuem a literatura presente em suas vidas já saibam do que a história se trata, digo isso principalmente porque acontecem tantas coisas no decorrer das páginas e as descrições das cenas (até mesmo das cenas mais simples) são tão incríveis, que nenhuma descoberta estragaria a experiência da leitura. Dessa forma, fica o aviso de que vou comentar alguns acontecimentos do livro, sim. Não vou dizer como ele acaba e nem contextualizar demais esses acontecimentos (prometo também manter o maior mistério do livro em segredo), mas cenas específicas serão comentadas.

Logo no começo, quando criança órfã morando de favor na casa dos tios (o tio que a amava já havia morrido e ela era maltratada pelos primos e pela viúva do tio), Jane mostra que não é uma simples vítima quando resolve revidar a agressão sofrida pelo primo. Ele lhe dá uma livrada na cabeça, que faz com que ela a bata numa parede e corte a testa, e ela voa para cima dele, derrubando-o no chão e distribuindo tapas e socos. Isso não foi nada bom pelo castigo que a menina recebeu depois, é fato, mas mostrou atitude.

Posteriormente, quando ela vai para a escola/abrigo e passa anos por lá, percebemos aquela menina rebelde e ansiosa por afeição se transformar em uma moça retraída e defensiva. Ela nunca se aproxima de ninguém de fato, e mesmo quando confessa apreço por alguém (visto que a narrativa é em primeira pessoa e temos total acesso aos pensamentos e sentimentos de Jane), sua forma de demonstrar é comedida.

Com 18 anos, ela resolve deixar a escola (onde passara de aluna para professora) e consegue um emprego de preceptora (professora particular) numa mansão familiar. Lá ela passa a conviver com Adèle, sua aluna, Sra. Fairfax, a governanta, alguns outros empregados e Sr. Rochester, o dono da casa e tutor da menina. Sr. Rochester é descrito como um homem feio, de feições rudes, humor instável e quase sempre desagradável. Mas, como já é de se esperar em um romance, Jane acaba se encantando por ele. E dessa forma, aquela moça decidida a se manter focada em seu trabalho para conquistar seu próprio espaço, sem depender de ninguém financeiramente ou emocionalmente, começa a enfrentar conflitos internos para lidar com a situação.

Vou parar por aqui o resumo da história e focar em questões específicas, como a personalidade de Jane e o que a torna uma personagem incrível: sua segurança apesar de toda sua insegurança. Desde o começo ela é menosprezada. Só lhe apontam defeitos. Ela é descrita como uma coisinha magra e feia, pobre, solitária... E apesar de todo conhecimento que possui resultante de seus estudos e de seu talento para artes (pintura e piano, por exemplo), sua posição social não lhe permite que valorize tais pontos fortes, e mesmo assim, em momento algum ela cogita tentar ser o que não é ou pensa em abrir mão de seu trabalho buscando um casamento, por exemplo, como era costume que as mulheres fizessem na época. 

Se a questão da segurança apesar da insegurança ainda não ficou muito clara, vou exemplificar melhor. Em vários momentos ela abaixa a cabeça reconhecendo o quanto é feia e que é apenas uma empregada naquela casa. Visitas femininas do Sr. Rochester a olham com desdém e fazem comentários maldosos a respeito dela, e tudo que ela faz é ficar na dela por se enxergar inferior devido à posição social. Quando o Sr. Rochester começa a demonstrar interesse por ela, ela demora muito a acreditar porque não consegue entender como aquele homem, rico, interessante apesar dos defeitos, que possui pretendentes socialmente melhores, poderia gostar dela. E mesmo assim, mesmo com todas essas inseguranças, quando surge a oportunidade de que ela suba socialmente, com presentes dele e um casamento, ela opta por se manter quem realmente é. Ela se recusa a usar vestidos caros e joias que fariam com que ela se sentisse uma atração de circo. E deixa bem claro que se essas são as condições dele, que ele escolha outra para mimar. E quando os dois estão supostamente se dando bem e uma nova barreira aparece, uma barreira nada simples, aliás, ela não passa por cima de seus princípios para continuar ao lado dele e resolve fugir. Mesmo com todo sofrimento que essa fuga lhe causa, tanto emocional, por estar se distanciando do homem que ama, quanto físico, até encontrar um lugar pra se abrigar, ela se mantém firme em suas escolhas e na sua determinação em crescer por seu próprio trabalho. Jane consegue ser um pouco de todas nós, meninas e mulheres do século XXI, apesar de nossa distância temporal, e consegue ser até um exemplo para muitas de nós.

Em relação à narrativa, eu já apontava O Morro dos Ventos Uivantes (Emily Brontë) como um dos meus livros favoritos, e após ler Jane Eyre, descobri que preciso urgentemente ler mais das irmãs Brontë. São romances com climas sombrios. Romances que tinham tudo para ser água com açúcar, mas fogem totalmente desse esteriótipo. As passagens relacionadas ao mistério que citei no começo, lidas durante a madrugada, me deixaram apreensiva. Uma das melhores sensações para mim, como fã de um terror, é ter esse tipo de reação quando não estou esperando, justamente como ao ler um romance clássico, por exemplo. Mas quem não gosta do gênero não precisa fugir por isso também. Prometo que não é nada que cause pesadelos.

A minha edição não é das melhores. Embora eu não tenha preconceito com edições de bolso, a BestBolso peca em qualidade por suas páginas finas e impressão levemente falhada. Mas pelo conteúdo, foi um investimento maravilhoso! Toda mulher deveria ler Jane Eyre.


E agora, antes de finalizar, um plus que achei interessante comentar:


Jane Eyre X Elizabeth (Lizzie) Bennet

Não escrevi uma resenha de Orgulho e Preconceito (Jane Austen), mas acredito que Lizzie Bennet seja uma das protagonistas mais famosas da literatura. Embora os romances de Jane Austen apresentem um clima bem diferente dos romances das irmãs Brontë, contendo mais leveza e enfatizando a importância de um casamento na vida de uma mulher, não pude deixar de fazer um comparativo entre as duas personagens, Eyre e Bennet.

Apesar de se tratarem de histórias que possuem mais de cem anos, ambas podem ser consideradas heroínas modernas. Ambas apresentam traços feministas, teimosia, orgulho e defendem quem são, independente do que os outros pensem disso. São personagens fortes, com quem qualquer leitora consiga se identificar em algum momento. Não são simples mocinhas. Não são modelos de perfeição, nem vítimas esperando para serem salvas por um homem. Ambas, aliás, tentam lutar contra seus sentimentos ao perceberem que os homens, objetos de suas paixões, apresentam peculiaridades que seriam prejudiciais a elas, seja o comprometimento de Sr. Rochester ou a arrogância de Sr. Dancy. Elas não se arrastam por um amor; não se trancam em seus quartos chorando e lamentando o quanto são azaradas e o quanto sofrem por terem se apaixonado por homens de classes sociais superiores que jamais olhariam para elas. Bom, talvez as lágrimas e as lamentações aconteçam em alguns momentos (o que faz de nossas protagonistas ainda mais humanas e próximas de nós), mas elas não se limitam a isso. Enxugam o rosto, levantam a cabeça e seguem firmes com orgulho, sem se envergonharem por serem pobres e feias (como ocorrem descrições em algum momento em relação às duas). E é justamente essa firmeza e essa confiança, suas personalidades marcantes, que conquistam esses amores. Não é beleza ou status.

Tendo tudo isso em comum, o que diferencia mais uma da outra é justamente os ares que ambas carregam, de acordo com o estilo das autoras e, talvez, pelas influências da forma como ambas cresceram. Jane Eyre, que cresceu sendo maltratada por parentes e posteriormente num abrigo para meninas, é mais sóbria e misteriosa. Lizzie, que cresceu com o amor dos pais e rodeada de irmãs, é mais leve e extrovertida, mesmo com seus traços sarcásticos. 

O fato é que, se eu tivesse que escolher minha favorita, não conseguiria.

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